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MEUS 20 ANOS
Ao ouvir a música nostálgica de Charles Aznavour cantando com suas netas, “Eu tinha 20 anos”, fiquei contaminado pela nostalgia e também fiz a pergunta que o trio cantava... onde andam meus 20 anos?
Procurei nos meus arquivos de memória e fiquei surpreso, há quanto tempo eu não vinha por aqui... onde estão os meus 20 anos?
Olhei para um lado, para outro, não encontrava. Não tinha certeza. Também não queria ir na caixa de meus documentos, seria uma declaração de impotência cognitiva. Eu devo ter guardado em algum escaninho da mente os meus 20 anos.
Será que eu estava na Marinha de Guerra do Brasil, servindo como marinheiro, assustado com um mundo novo que se descortinava para mim, belo, diversificado e ao mesmo tempo atemorizador? Procurava Deus nas estrelas como o Pai que eu nunca tive ao meu lado; procurava um amor romântico nas praças, como aqueles que eu lia nos gibis, nos contos de fadas.
Sei que eu era tímido, não sabia nem falar com Deus nas minha orações, quanto mais conversar com uma garota que despertasse o meu coração.
Nos meus 20 anos eu não sabia mais brincar como antes fazia, construindo castelos com tampas de garrafas; não sabia que eu estava dentro da correnteza do tempo, que logo eu perderia as memórias dessa época, da mesma forma que eu perdia as chances de realizar os meus sonhos.
Lembro que a menina com quem eu sonhava na adolescência, que nunca cheguei perto para trocar nenhuma palavra, quanto mais um sorriso, um olhar, ela continuava, nos meus 20 anos, a dominar os meus pensamentos de forma obsessiva, porém inacessível. Era um sonho que estava acima da minha capacidade de agir.
Confiava no futuro que um dia iria chegar, que traria meus sonhos, mas já não sou como fui, não encontro o que eu tinha, não pensei que o tempo levaria o que na hora eu não pudesse pegar... não consegui viver nos meus 20 anos o que eu sei hoje que poderia fazer... não soube viver.
Agora sei porque não encontro os meus 20 anos, não foram vividos; foram anos de expectativas que chegasse o dia de hoje, que eu teria tudo o que desejava... mas como? Agora interrogo, se eu não conseguia pegar a vida que o tempo corrente me oferecia. Não considerei que meus dias eram aqueles que corriam com o tempo.
Fiz tantos projetos, criei tantos sonhos, alimentei tantas esperanças, ficaram tudo nas margens do tempo que me levou de roldão. Ignorei que o passado é que constrói o futuro e se perdi o meu tempo, perdi também minhas asas. Permaneço perdido sem saber para onde ir, procuro o céu que o Pai me prometeu, mas meu coração, pesado, não consegue sair do chão.
Ao rio do tempo se somam agora as minhas lágrimas de desamparo. Saudade de um tempo que escapou entre meus dedos, que esfumaçou os meus sonhos. Os meus amores morreram sem existir, sem saber que eu amava tanto; meus amigos partiram e não mais voltarão, por minha culpa criei o vazio em torno de mim, e o tempo com ironia, pintou rugas em minha face.
Sim, lembro de algo dos meus 20 anos... o sorriso, os sonhos, os desejos... onde estão agora? O sorriso congelou, os sonhos evaporaram, os desejos... desejos? Só sobrou um: de voltar os meus 20 anos!
Sióstio de Lapa
Enviado por Sióstio de Lapa em 07/05/2018
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