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TROTSKY (03) – NA REVOLUÇÃO CIVIL
               Após a queda do governo czarista, a Rússia mergulhou numa guerra civil, entre os mencheviques e os bolcheviques, estando Trotsky entre os bolchevistas liderados por Lenin, que visavam a implantação do socialismo
               Rússia soviética, 1918 – Território controlado pelos bolcheviques.
               Telegrama sendo rodado... o presidente do Conselho do Comissariado do Povo V. Lenin. (oficial leva o telegrama para a cabine de Trotsky). Bate na porta.
               - T. Entre. (o oficial entrega o telegrama e Trotsky que continua a leitura... a ordem de retirada... é um desprezo claro pelo...) Isso é tudo?
               - O. As tropas se retiraram para Sviyazhsk, e os relatórios dizem que estão em péssimas condições.
               - T. As condições das tropas é problema meu, não seu. Pode se retirar, Oficial Sermuks.
               - O. Sim, senhor.
               (Reminiscências de Trotsky, no México: eu me lembro de 1918 muito bem. Sofremos uma derrota atrás da outra. As medidas corretivas habituais não ajudaram. As tropas não estavam se retirando, estavam fugindo.)
               O cenário muda para o acampamento dos soldados. Um deles toma a palavra:
               - Companheiros, venham aqui! Escutem! Aproximem-se! Porque nós, os russos, deveríamos lutar contra outros russos? Dizem que os dias dos soviéticos estão contados. Deixem que os bolcheviques lutem contra Kappel! Não nós! Ficaremos só olhando! E se não nos derem um trem, tomaremos um! - Tomamos um! – Tomem isso! – Vamos para casa! – Isso! (todos se manifestam favoravelmente ao colega)
               A cena se volta para a chegada do trem que conduz Trotsky, com as bandeiras vermelhas se confundido com o grosso rolo de fumaça ao bailar do vento. Os soldados assistem atônitos a chegada da imponente máquina, os soldados bem uniformizados e disciplinados, formando um corredor por onde Trotsky desce bem vestido e sério, que sobe numa mesa de madeira próxima e começa a falar.
               - Soldados! Combatentes do Exército Vermelho! Há menos de um ano, todos nós, lado a lado, acabamos com o jugo da tirania, desigualdade de classes e exploração do homem comum. Mas ainda há aqueles que lutam para nos escravizar de novo. Eles estão ali, daquele lado do front. Proprietários de terra, industriais. O Exército Branco, eles não gostam da liberdade que os bolcheviques deram aos operários e aos camponeses. A vocês! Para aqueles que, até ontem, trabalhavam três turnos em troca de uma miséria, e hoje pegam em armas e dizem: “Não!” Não abriremos mão da nossa liberdade! Não! Não seremos escravizados de novo! Eu sei que cada um de vocês está pronto para servir à causa da revolução. Pronto para dar sua vida por ela. Sua mão, irmão. Venha. Pode vir. Aqui, não há diferença entre nós dois. Não há nada que possa ser meu que não possa ser dele. Nada! (Puxa o soldado para ficar sobre a mesa, ao seu lado, e de forma dramática tira o relógio do pulso e mostra para todos a entrega do objeto ao surpreso soldado) – Pegue.
               A cena recua no tempo. Trotsky está dentro do trem com Larisa. Ele pega uma caixa cheia de relógios de pulso. Larisa pergunta: - Desde quando deixou de usar relógio de bolso? Trotsky responde: - Não é para mim.
               Volta a cena para o discurso improvisado de Trotsky.
               - No mundo que estamos construindo todos os bens serão de todos.
               A plateia se empolga, jogam chapéus para cima e aplaudem...
               - Viva!
               - Viva!
               - Mas para alcançarmos a vitória o nosso inimigo precisa nos temer. Não podemos nem pensar em voltar, e como ele não pode pensar nisso quando abrimos mão de uma cidade atrás da outra? Se nossos soldados da revolução estão tomados pelo pânico e pelo medo? Ontem, soldados do 2º Regimento de Petrogrado abandonaram seus postos e fugiram. Onde está seu comandante, e comissário?
               Se apresentam os oficiais citados, que recebem ordens:
               - Comandante Regimental Gneushev.
               - Comissário Regimental Panteleev.
               -T. Enfileire os soldados, conte até dez e selecione os décimos.
               Enquanto o oficial cumpre a ordem e seleciona aqueles cuja contagem cai no número dez, outro oficial tenta argumentar:
               - Sr. Trotsky, são trabalhadores. Mobilizados de uma gráfica. Só viram rifles há uma semana.
               Enquanto a contagem continua, uma voz ecoa na sua consciência de Trotsky, associada a sua companheira de viagem.
               “Não se preocupe, muitos dos seus contemporâneos não o compreenderão. Vão julgá-lo, chama-lo de Judas. Mas o futuro lhe dará razão. E lhe aclamará. Dizimação.”
               -T. Agora junte-se a eles. Companheiro Comissário, junte-se a eles também.
               Todos, assustados, ficam perfilados frente ao acusador.
               -T. Por traição desonrosa contra a Rússia Soviética, o tribunal revolucionário sentencia os desertores do 2º Regimento de Petrogrado... – Mirar! ... seu Comandante Gneushev e seu Comissário Panteleev à pena de morte por fuzilamento. – Cumpram a sentença.
               Todos os citados caem ao som surdo do fuzilamento.
               Este evento é um ponto esclarecedor de nossas reflexões: existia um clima de injustiça, de exploração dos trabalhadores que viviam como animais para garantir a fortuna e riqueza de seus algozes, quer sejam ligados ao czarismo, quer sejam ligados ao capitalismo para onde estavam migrando as relações feudais do governo czarista. O movimento bolchevista idealizava acabar com essa situação, implantar o modelo socialista e logo em seguida o comunista. Mas o movimento capitalista que acabara de depor o regime czarista, se oponha com armas a essa modificação. Então, era justo que os bolchevistas também pegassem em armas e conquistassem o apoio da população para se livrar desse regime de escravidão. Até justificaria o comportamento dramático, ilusionista de Trotsky, com a cena do relógio de pulso, para virar a opinião pública em seu favor. A partir daí justificaria atitudes fortes, de condenar sumariamente ao fuzilamento alguns dos desertores para impor o respeito e o medo entre os restantes, e se disporem a atacarem as cidades resistentes até a morte. Pode ser cruel, a morte de pessoas simplórias, que haviam pego em armas pela primeira vez, que se encontravam mal treinados e amedrontados, para serem deparados com um terror maior e mais próximo deles: o fuzilamento imediato. Seria isso ou a continuação do regime escravista, agora sob a bandeira do capitalismo. Para se evitar um mal maior, a manutenção da escravidão do povo ao capitalismo, deveria ser promovido o mal menor, a morte de alguns como inocentes úteis para se implantar a motivação do medo e se alcançar a vitória.
               Mas, como pensavam os mencheviques, opositores dos bolcheviques? Tiraram por meio da revolução o governo czarista, feudal, e implantaram o modelo capitalista, com o propósito de mais adiante atingirem o socialismo e em seguida o comunismo. Porém, para atender os interesses capitalistas, a Rússia devia permanecer dentro da 1ª Guerra mundial, sem condições e sem o povo querer. Esse foi o fator decisivo para que revolução russa caminhasse para os interesses bolchevistas, com a implantação imediata do socialismo e a retirada imediata da Rússia da guerra.
               Portanto, as atitudes rudes, firmes e perversas de Trotsky, encontravam respaldo popular e tinham um objetivo libertário, e dessa forma se aproximava mais do pensamento cristão do que a eterna escravidão a um regime financeiro e elitista.
            Até aqui a minha reflexão acompanha com positividade os acontecimentos da revolução russa, procurando sempre os fatos reais para montar uma narrativa mais próxima da verdade. Eu poderia até apoiar a ideologia menchevista de construir inicialmente uma sociedade capitalista, para o preparo menos radical de uma sociedade socialista/comunista, se não tivesse uma guerra no meio, inviabilizando essa estratégia.
Sióstio de Lapa
Enviado por Sióstio de Lapa em 23/12/2018
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