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CHAGAS
Francisco de Assis amava tanto a Jesus que incorporou no seu corpo as chagas que o Mestre adquiriu durante o seu suplício de crucificação. Mas, por que isso aconteceu com Ele, com Jesus? Já que era um espírito puro e não tinha necessidade de sofrer tantos castigos? Acontece que Ele estava obedecendo a ordem do Pai de vir nos ensinar sobre o Amor. Cumpriu perfeitamente a Sua tarefa, apesar das consequências.  
Hoje, dois milênios após a Sua vinda à Terra, o Seu Evangelho é conhecido pela maioria das pessoas e muitos procuram praticar suas lições. Eu estou incluído. Mesmo sabendo das inúmeras dificuldades, tanto internas quanto externas que irei enfrentar. Compreendi que sou filho do mesmo Pai, que também tenho uma missão, não tão importante que fosse prevista pelos profetas com muita antecedência, mas que, por pequeníssima que seja, é a minha missão.
Segundo o que Jesus veio ensinar, e outros avatares (No Hinduísmo, momento que corresponde à descida de uma entidade sagrada à Terra, geralmente assumindo um aspecto materializado, às vezes humano, outras em forma de animal) da humanidade, o Amor puro, o incondicional, aquele que não está condicionado a qualquer condição, filho, pai, mãe, etc., deve ser a energia para movimentar nosso corpo a partir do coração, com a vigilância da mente, do racional, da consciência. Para que não tivéssemos dúvidas, o Mestre ainda ensinou que, devíamos fazer ao próximo aquilo que queríamos que fizessem a nós.
Com essa compreensão na mente comecei a colocar em prática essa forma de amar. Consequentemente foram me chegando as chagas, onde eu menos esperava: na alma. Um local que ninguém pode ver, apenas eu posso sentir. Tenho até certa vantagem com relação a Francisco de Assis, pois as chagas dele eram no corpo físico e ele tinha a maior preocupação de mantê-las escondidas. As minhas já estão escondidas na sua origem. Não sei como as chagas dele eram formadas, mas sei como as minhas são.
Durante a prática do Amor, necessariamente ele é distribuído por quem está presente, ao meu próximo, independente de quaisquer condições. Quanto mais próximo de mim, mais a intensidade desse Amor. Isso leva a muitos benefícios a quem está próximo, principalmente a quem se dispõe a me acompanhar, principalmente as minhas companheiras que geram comigo uma convivência.
Acontece que essas minhas companheiras são inevitavelmente atacadas pelo pecado do ciúme, não querem que eu distribua afetos a outras pessoas que elas considerem que possam roubar a condição de ser a minha companheira exclusiva, condição que o Amor Incondicional não garante a ninguém. Mas elas, mesmo sabendo da mecânica afetiva do meu comportamento, não conseguem tolerar a minha aproximação com outras pessoas que consideram agora rivais, e chegam ao clímax da intolerância, de me expulsar da sua convivência, das suas casas, muitas vezes com brutalidade, queixas, ameaças...
Eis aí a fonte das minhas chagas! Como poderei eu ir, escorraçado por uma pessoa que amo, que dividíamos intimidades físicas e emocionais, e que fica encharcada de lágrimas por eu não ser o que ela deseja? Uma enorme chaga se forma na minha alma.
Fico no isolamento do meu apartamento a refletir: onde foi que eu errei? Não encontro nenhum erro. Mantive a minha consciência ligada ao projeto que Deus colocou dentro dela. Informei a qualquer pessoa que se aproximava de mim, com intenções de intimidades, de convivência, como era que eu funcionava, a ligação indestrutível que eu tinha com Deus, que não podia ser exclusivo de ninguém. Mesmo assim a pessoa decidia ficar perto de mim, e mesmo eu sabendo que um dia essa pessoa iria ser atacada pelo pecado do ciúme e desmoronaria, eu tinha que aplicar a lição de jesus, dar a ela o que eu gostaria de receber: o meu afeto! Pronto! A bomba está armada. O tempo passa, e cada vez mais a qualidade do meu afeto deixa a pessoa com mais necessidade, com desejos de exclusividade.
Até que chega o dia, e sempre esse dia chegará, que uma pessoa é considerada como rival, e a bomba emocional explode. A pessoa fica desnorteada, incapacitada, depressiva e inoperante. Banhada em lágrimas com queixas de ingratidão, de amores desgovernados por outra pessoa... e eu sou expulso com mais uma nova chaga...
Mas eu sinto que estou em boa companhia espiritual pois estou seguindo o modelo que o Pai quer dos seus filhos, não importa as consequências... assim como o Cristo foi expulso pelos sacerdotes, assim como Francisco de Assis foi expulso pelo seu pai, eu também, não posso me esquivar de ser expulso por minhas companheiras.
Sióstio de Lapa
Enviado por Sióstio de Lapa em 12/04/2019
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