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GRATIDÃO (12)
Tiago e João eram irmãos, a dupla de discípulos que abriu e fechou o testemunho de fidelidade ao Mestre. Tiago foi o primeiro mártir do colégio apostolar, morto pela espada a mando do rei Herodes. Antes de ser martirizado, Tiago abraçou o carcereiro desejando-lhe a “Paz de Cristo”. Este gesto converteu o carcereiro que, assumindo a fé em Jesus, foi martirizado juntamente com o apóstolo.
João foi o último dos 12 que selou o Evangelho com uma vida de disciplina aos 95 anos. Apesar de tentarem a sua morte em óleo quente, de onde saiu ileso, foi deportado para a ilha de Patmos onde escreveu o último livro da Bíblia, o Apocalipse.
A mulher de Zebedeu e mãe de Tiago e João, conscientizada que Jesus era verdadeiramente o Messias anunciado pelos profetas, pediu para Ele, na sua ingenuidade, que seus filhos pudessem tomar lugar no reino que lhe pertencia, um à direita e outro à esquerda. Jesus deu a entender que somente a Deus caberia aceita-los ou não. No entanto, respondeu com lealdade à mãe que exagera no zelo pelos filhos. Ele disse: “Será que poderão beber do cálice que eu vou beber?”
Instintivamente, responderam os dois: Podemos!
A história mostra que beberam e que o Pai Celestial permitiu, na figuração que lhe é própria, um à esquerda do Mestre, e outro à direita, só que não foi da maneira que a mãe extremosa idealizava, mas como a vida achou mais acertado.
Zebedeu e Salomé tiveram a honra de ter dois dos seus filhos libertados das amarras da ignorância pela sapiência do Messias. Foram chamados, aceitando sem pensar nos obstáculos que poderiam surgir, pela transformação dos seus costumes. Decidiram, por amor, pela causa de servirem ao bem comum, sem nada pedir para si, tendo o Cristo como meta de pureza espiritual e Deus como segurança que pulsa na eternidade.
Tiago era muito amigo de Pedro e André, e tinha uma sensibilidade à flor da pele e era muito agitado, carecendo de certa educação. Ao conhecer Jesus, pela insistência de João, já ficou inseguro, achando que no encontro com um homem de tal pureza as suas emoções se tornariam piores. Tinha medo de um desequilíbrio mental. Contudo, a razão reforçava o ânimo: “Como as coisas dos céus podem ser motivo de medo?”. Se esse for verdadeiramente o Messias é justo colocar a educação e a disciplina de todas as forças da alma em primeiro plano de vida.
Ao cair da tarde, como sempre faziam, Tiago foi ao encontro de Jesus e reunido junto com seus companheiros teve a oportunidade de fazer uma pergunta que ele estava em dúvida, inquirindo o Mestre, desta forma:
Jesus! Se me permites saber, queria que o Senhor ampliasse para o meu conceito o que seria exatamente a Gratidão.
- Tiago, a Gratidão é um modo de ser das pessoas que a usam, muito importante na vida! É saber cuidar com zelo daquilo que recebemos dos nossos semelhantes, e lembrar dos nossos benfeitores com respeito e amor. Apesar disso, a experiência nos reclama certa vigilância, para que o reconhecimento não se transforme em subserviência, que é o adubo principal da vaidade. O maior obstáculo que vais encontrar na Gratidão aos outros é dentro de cada um mesmo.
‘As pessoas, por mais que se esforcem para serem reconhecidas, encontram alguma coisa rodando no seu coração, dizendo ser filha do egoísmo e parecendo muito com o zelo próprio. Mas, ao tirar a capa, é a mesma vaidade querendo florescer, é a auto grandeza que não se conforma que alguém seja maior. Não deixa de ser o orgulho procurando se expressar como o comandante da vida.
‘A Gratidão necessita da humildade e jamais deixa de usar o bom senso. Essa Gratidão é valorosa e enriquece a amizade. É, por assim dizer, o amor que mostra, ao benevolente, que vale a pena amar. Tudo no mundo tem uma resposta. O reconhecimento é a resposta prática da caridade.
‘Se fazes o bem constantemente e ainda não fostes alvo da Gratidão, não esmoreças com isso. Ela deve estar à caminho. Se não for pelo objeto visado pelo teu amor, será pelos meios que Deus sempre usa para nos premiar; mas sempre receberás em troca aquilo que dás. Se queres ter um lugar de maior relevo no coração da vida, nunca deves pensar no comércio dos próprios dons espirituais. A exigência desnorteia os valores da alma, e a troca interesseira entorpece a dádiva.
Judas Iscariotes não perdeu uma só palavra do Mestre, encontrando dificuldade, não no entendimento, e sim na prática dessa virtude, pensando: “Então ficaremos devedores para sempre dos nossos benfeitores? A vida não é uma troca natural de atos e coisas? Por que esse empenho em ser reconhecido? ”
Jesus, psicólogo incomparável da natureza humana e espiritual das criaturas, esclareceu com firmeza:
- Gratidão, meus filhos, não significa compromisso com o benfeitor. É completamente o contrário. Ela nos liberta da dívida, quando a consciência exige de nós alguma paga. Quando fazeis alguma coisa malfeita, não é o arrependimento que abre as portas da reparação? Ao receber algo de bom dos outros, é o reconhecimento que desperta em vós o amor que existe em todas as almas e que, por vezes, dorme. O Amor é a verdade, e a verdade sempre liberta as criaturas das amarras da ignorância.
‘Não vamos ficar repetindo Gratidão em voz alta para todos que passam a reconhecer em nós virtudes que às vezes não existem, eis a falsa Gratidão. Ela opera no silêncio da conduta e, quando a oportunidade chega, é bom que se prove, com a naturalidade que a sinceridade expressa, que não somos petrificados, mas sim sensíveis aqueles que nos ajudam no caminho e procuram aliviar a nossa cruz.
‘A caridade é Deus se fazendo visível para nós por intermédio dos outros e a Gratidão é o mesmo Deus se expressando aos outros pelo que eles fizeram por nós. E é por essas vias que o amor que temos a Deus sobre todas as coisas começa a nos fazer sentir que devemos tê-lo para com o próximo, amando-o como a nós mesmos.
Finalmente, o Cristo conclui:
- Sou grato a todos vocês que reunis aqui comigo, por amor a Deus. Quantos esforços são feitos pelos companheiros para não faltar aos compromissos assumidos pela consciência? E sou eternamente grato e peço ao Pai que vos dê a felicidade como recompensa de tamanha dedicação.
‘Meus filhos, se soubésseis, na profundidade da expressão, o que é servir por servir, amar por amar, seríeis reconhecidos do fundo dos corações a Deus, por nos ter permitido trabalhar uns pelos outros.
Judas parecia mastigar algo que não tinha na boca
Tomé balançava a cabeça tentando limpar a mente
Tiago, embebido nos argumentos do Mestre, na sua simplicidade, não pressentiu quando Jesus saiu com seus companheiros, e ficou sozinho, satisfeito com a vida e disposto a trabalhar, sem sentir escravidão no labor.
Sióstio de Lapa
Enviado por Sióstio de Lapa em 17/06/2019
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