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AA – CONHECIMENTO E RESPONSABILIDADE
            Fui convidado a fazer uma palestra no aniversário de 44 anos de AA no Rio Grande do Norte, na cidade de Açu-RN, evento que foi realizado no sábado, dia 03-08-19. Eis o conteúdo da minha exposição.
            Boa noite, amigos. Nós achamos da máxima importância esta reunião da irmandade de Alcoólicos Anônimos, de informação ao público, dado o desconhecimento que muita gente tem da Irmandade. Sou professor da UFRN, da disciplina de Psiquiatria; coordeno a disciplina de Medicina, Saúde e Espiritualidade, e logo que comecei a clinicar na psiquiatria, naquele afã de cuidar, de curar os pacientes, comecei a ficar decepcionado, pois a maioria dos meus pacientes, ou mesmo a totalidade deles, não tinha uma cura. A depressão, a esquizofrenia, a ansiedade... eles eram compensados, melhorados, mas não curados. Mais frustrado fiquei quando comecei a tratar os alcoólicos. Eles, diferentes dos outros doentes mentais, quando estavam sóbrios eram pessoas normais, não tinham em si qualquer tipo de sintoma mental que observava nos outros doentes. Eram pessoas saudáveis, mas quando bebiam se transformavam. E isso era constante, todo dia e precisavam ser internados. E eu internava! Ficava um mês, dois... um ano, e recebiam alta. Iam para casa aparentemente normais, e logo, no mesmo dia, na mesma semana, voltavam a recair no consumo de bebidas alcoólicas. E não tinham nenhum sintoma mental e voltavam a beber, mesmo não querendo.
O que estava acontecendo? Eu, formado pela academia, com doutorado na área, não conseguia cuidar desses pacientes, não conseguia ajuda-los a parar com a bebida. Então, comecei a ver que eu era incapaz de curar meus pacientes, era mínima a minha taxa de sucesso.
Foi aí que tive a informação que, aqueles que iam e ficavam no AA,, permaneciam em abstenção do álcool e reformulando a vida para melhor, tanto de si como dos familiares. E as pessoas que formavam essa irmandade não tinha nenhum conhecimento técnico, eram pessoas leigas que apenas tinham em comum a doença do alcoolismo. Onde estava o segredo? Foi ái que observamos que algo que a academia não fazia e a irmandade fazia: a espiritualidade. Nós da academia não dávamos valor à espiritualidade, mas ela estava no centro da irmandade. A irmandade de AA surgiu com foco na espiritualidade e comecei a trabalhar nessa questão, cheguei a formar na UFRN essa disciplina e comecei a dar a devida importância ao lado espiritual.
            Nós estamos numa guerra espiritual há muito tempo, onde Deus fez a sua criação com harmonia e o Demônio tenta desestabilizar os seres humanos, a imagem e semelhança do Criador. O Diabo, inteligente como na realidade é, colocou em nosso caminho um obstáculo, uma pedra: o álcool. Ela vai fazer a gente tropeçar, cair e nos tornar sem condições de levantar. Mata nossas células mais importantes e sensíveis, que são nossos neurônios, principalmente os neurônios da parte frontal do cérebro que são os responsáveis pelas ações inteligentes, por nossos diagnósticos, decisões, avaliações. Esses neurônios ficam deprimidos e terminam morrendo e as pessoas agora passam a manifestar os seus instintos básicos que se manifestam de três formas, que descrevemos de forma jocosa: comportamento de macaco, porco e leão.
            Então, a pessoa agora doente do alcoolismo, não está sofrendo sozinho. Ela tem uma mãe, um pai, uma esposa, os filhos, enfim, muitos parentes e amigos que sofrem com ela. Assim, concluímos que estamos envolvidos numa batalha espiritual onde todos, que sejamos alcoólicos ou não, estamos dentro dela. Devemos atentar para nossa condição de vida, se estamos em um ou outro exército. A Bíblia diz que nossa verdadeira luta é contra as forças malignas que estão tentando destruir a humanidade. Temos que observar as características dos servos de Deus, as virtudes. As características diabólicas, os vícios e os pecados capitais. Nós não somos ainda santos, somos carregados de egoísmo de características negativas. Temos que nos esforçar para nos libertar desse encargo.
            Os pacientes alcoólicos estão atingidos pela arma do demônio, o álcool. Devemos nos esforçar, fazer parcerias com as igrejas de todas denominações, as instituições mais diversas, para libertar o homem do espírito maligno que está dentro daquela garrafa. Temos que saber que o álcool desencadeia no cérebro uma ativação nos circuitos do prazer e isso faz com que ele repita o comportamento quantas vezes tenha interesse em sentir de novo esse prazer. E quanto mais cedo a pessoa começa a usar o álcool, mais fácil e rápido ela se torna dependente.
            Dentro dessa Batalha Espiritual, devemos esclarecer as pessoas sobre a doença que é progressiva, reflexiva, incurável e fatal. É uma doença séria e que poucos veem, podemos até chamar de doença invisível. A pessoa se torna incapacitada e sem condições de defender seus interesses
            A criação da Irmandade de AA foi uma contra-ofensiva de Deus para conter o ataque do mal. As pessoas reunidas na sala de AA representam um quartel general de Deus, onde se forma o Poder Superior que fortalece todos. Mas existe um problema. Por exemplo, se formos internar um paciente durante um mês num hospital psiquiátrico vai ser gasto em torno de 10 a 15 mil reais. Os familiares podem se cotizar e pagar pelo tratamento, e que na maioria das vezes falha. Agora, os doentes chegam ao AA e ficam recuperados. Passam um, dois, dez, vinte, trinta anos sem beber, abstêmios e recuperando sua vida e de seus familiares. E quanto foi pago por isso? Nada! Mas tem algum custo? Sim. O custo são as pessoas que frequentam essas salas de AA e as mantem com seus próprios recursos, para acolher os alcoólicos que ainda sofrem e que precisam desse apoio, como elas tiveram. Então, por gratidão, todos os alcoólicos, recuperados, tem o dever moral de manter esses grupos abertos, ajudando os outros e principalmente a si próprios para manter a sua sobriedade.
            De acordo com a minha compreensão técnica, eu vejo que a participação do alcoólico em AA tem muito mais sucesso na recuperação de que o uso de remédios, psicoterapia ou mesmo a internação. Vejo que as famílias podem se integrar ao Al-Anon, os filhos ao Al-Teen, para aprenderem como se comportar e ajudar o seu parente a se recuperar.
            Vamos seguir a lição de Jesus e procurar a Verdade para nos libertar, e aqui está o caminho: vamos participar dos grupos de AA, de Al-Anon, Al-Teen, estudar a sua literatura e nos capacitar. E advirto: o próprio Jesus já dizia que, a quem muito é devido, muito será cobrado. Eu tenho essa responsabilidade, pois sei os caminhos mais eficazes para tratar meus pacientes, por isso estou aqui com vocês em AA. E vocês também, hoje receberam informações que levam a ter novas responsabilidades, inclusive nessa guerra espiritual. Façam essa reflexão interna e vejam o que podem fazer, onde querem ficar colocados nessa Batalha Espiritual que tem o alcoolismo como a ferramenta do demônio.
            Onde cada um de vocês querem ficar mobilizados? A decisão é de cada um!
 
Sióstio de Lapa
Enviado por Sióstio de Lapa em 07/08/2019
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