Meu Diário
03/06/2019 00h01
HERÓI DESCONHECIDO

            Júlio foi à praia com Melissa. Se amavam, mas o tempo de casados extinguiu a paixão, e Melissa entendia que assim acabara o amor. Júlio sabia que não, entendia que o amor era eterno e que nada podia destrui-lo. Por isso tolerava as grosserias da esposa, que tentava lhe punir por ele não ser tão obsessivo por ela como acontecia no tempo da paixão.

            O mesmo estava acontecendo agora na praia. Ele convidou-a para tomar banho na praia, num local agradável onde o rio doava suas águas ao imponente mar. Belo, mas perigoso. Inadvertidos quanto a isso, Júlio pensava apenas em agradar a esquiva esposa. Essa, ressentida com as verdades de sua imaginação, ignorava toda expressão de afeto do marido. Deixou-o sentado na areia da praia sobre uma toalha, e foi sozinha entrar no banho, logo no local mais perigoso, onde o rio fazia um redemoinho antes de ser sequestrado pelo mar.

            Melissa logo se viu envolvida pela força da correnteza e ser puxada pelas profundezas, passando rente a uma pedra providencial. Ela sentindo o perigo, gritou por socorro, e Júlio, o mais próximo dela, mesmo sem saber nadar o suficiente, se atirou nas águas para salvá-la. Conseguiu alcança-la com uma mão e com a outra se agarrou na pedra, impedindo o deslocamento para o meio do mar. Foi o tempo suficiente para que um pescador que estava mais distante, corresse e viesse salvar os dois.

            Passado o perigo, esse drama ficou na memória de Melissa. Eles terminaram se separando, a desarmonia causada pelos pensamentos sem sintonia de Melissa, terminaram por romper os últimos laços de amor e amizade que Júlio queria manter. Pelo menos conseguiram, depois de certo tempo, construir um nível de amizade sem compromisso com o casamento.

            Quando estão reunidos com outras pessoas amigas, e Melissa sempre tem a oportunidade de falar sobre o banho de mar, ela fala do trauma que adquiriu naquele dia. Diz que estava sendo tragada pelo mar e que foi salva por um pescador nos últimos momentos. Nenhuma referência faz ao comportamento heroico de Júlio, se jogando no mar sem saber nadar, para fazer uma ponte entre ela e o mar, enquanto o pescador chegava.

            Que teria acontecido? O medo teria feito ela esquecer o momento que Júlio a alcançava pela mão? Será que a raiva que ela tinha do marido foi suficiente para tirá-lo da cena? Ou será que ela lembra de tudo e não quer ser devedora de uma dívida tão alta com uma pessoa que não mais lhe amava?

            Mas Júlio sabia o quanto a amava, tinha a coragem de arriscar a sua vida por ela, como na realidade fez, apesar de ser tão ignorado. Mesmo agora, depois de tanto tempo de separados, ele ouve a mesma história sem o elo que falta, e não procura corrigir a história, afinal se assim ela fica satisfeita, não seria ele que iria repor a verdade onde ela não traria frutos, talvez desarmonia pela introdução da suspeita de que a verdade seria mentira. Essa forma de amor, Júlio guardaria para si, afinal, tantas outras formas de amor ele demonstrara, e ela não reconhecera nenhuma...

            Por isso, essa prova de amor, a do herói desconhecido, seria somente dele.


Publicado por Sióstio de Lapa em 03/06/2019 às 00h01
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02/06/2019 00h31
CORAÇÃO EM LUTA

            Quinto Varro descobriu que a sua mulher desenvolvia um romance com seu patrão, pensou em pegar o seu filho e fugir. Mas como era cristão, procurou conselhos de Lisipo de Alexandria, um reconhecido orador das catacumbas. Este é o conselho dado, de acordo com o escrito de Emmanuel, no livro Ave Cristo, psicografado por Chico Xavier em 1953.

            - Varro, aceitaste o Evangelho para que Jesus se transforme em teu servidor ou para que te convertas em servidor de Jesus?

            - Oh! Sem dúvida – suspirou o rapaz -, se alguma coisa aspiro no mundo é o ingresso nas fileiras dos escravos do Senhor.

            - Então, meu filho, cogitemos dos desígnios do Cristo e olvidemos nossos desejos.

            E, fitando o céu pela janela humilde, deixando perceber que solicitava a inspiração do Alto, acrescentou:

            - Antes de tudo, não condenes tua mulher. Quem somos nós para sondar o coração do próximo? Poderíamos, acaso, torcer o sentimento de outra alma, usando a maldade e a violência? Quem de nós estará irrepreensível para castigar?

            - Todavia, como extinguir o mal, se não nos dispomos a combate-lo? – ajuizou Varro, gravemente.

            O ancião sorriu e considerou:

            - Acreditas, porém, que possamos vencê-lo à força de palavras bem-feitas? Admites, porventura, que o Mestre haja descido das Alturas, simplesmente para falar? Jesus viveu as próprias lições, guerreando a sombra com a luz que irradiava de si mesmo, até o derradeiro sacrifício. Achamo-nos num mundo envolvido em trevas e não possuímos outras tochas para clareá-lo, senão a nossa alma, que precisamos inflamar no verdadeiro amor. O Evangelho não é somente uma propaganda de ideias libertadoras. Acima de tudo, é a construção de um mundo novo pela edificação moral do novo homem. Até agora, a civilização tem mantido a mulher, nossa mãe e nossa irmã, no nível de mercadoria vulgar. Durante milênios, dela fizemos nossa escrava, vendendo-a, explorando-a, apedrejando-a ou matando-a, sem que as leis nos considerem passíveis de julgamento. No entanto, não será ela igualmente um ser humano? Viverá indene de fraquezas iguais às nossas? Por que conferir-lhe tratamento inferior àquele que dispensamos aos cavalos, se dela recebemos a bênção da vida? Em todas as fases do apostolado divino, Jesus dignificou-a, santificando-lhe a missão sublime. Recordando-lhe o ensinamento, será lícito repetir – quem de nós, em sã consciência, pode atirar a primeira pedra.

            E, fixando significativamente os dois ouvintes, acentuou:

            - O Cristianismo, para redimir as criaturas, exige uma vanguarda de espíritos decididos a executar-lhe o plano de ação.

            - No entanto – ponderou o jovem romano, algo tímido -, poderemos negar que Cíntia esteja em erro?

            - Meu filho, quem ateia fogo ao campo da própria vida, decerto seguirá sob as chamas do incêndio. Compadece-te dos transviados! Não serão suficientemente infelizes por si mesmos?

            - E meu filho? – perguntou Varro com a voz embargada de pranto.

            - Compreendo-te a aflição.

            E, vagueando o olhar lúcido pela sala estreita, Corvino pareceu mostrar um fragmento do próprio coração, acrescentando:

            - Em outro tempo, bebi no mesmo cálice. Afastar-me dos filhinhos foi para mim a visitação de terrível angústia. Peregrinei dilacerado, como folha relegada ao remoinho do vento, mas acabei percebendo que os filhos são de Deus, antes de pousarem docemente em nossas mãos. Entendo-te o infortúnio. Morrer mil vezes, sob qualquer gênero de tortura, é padecimento menor que esse da separação de uma flor viva que desejaríamos reter ao tronco do nosso destino...

            - Entretanto – comentou o patrício amargurado -, não seria justo defender um inocente, reclamando para nós o direito de protege-lo e educa-lo?

            - Quem te ouviria, contudo, a voz, quando uma insignificante ordem imperial poderá sufocar-te os gritos? E além do mais – aduziu o ancião, afetuosamente -, se estamos interessados em servir ao Cristo, como impor a outrem o fel que a luta nos constrange a sorver? A esposa poderá não ter sido generosa para com o teu coração, mas provavelmente será abnegada mãe do pequenino. Não será, pois, mais aconselhável aguardar as determinações do Altíssimo, na graça do tempo?

            Detendo-se na dolorosa expressão fisionômica do pai desventurado, Corvino observou, depois de longa pausa:

            - Não te submetas ao frio do desengano, anulando os próprios recursos. A dor pode ser comparada a volumosa corrente de um rio, suscetível de conduzir-nos à felicidade na terra firme, ou de afogar-nos, quando não sabemos sobrenadar. Ouve-nos. O Evangelho não é apenas um trilho de acesso ao júbilo celestial, depois da morte. É uma luz para a nossa existência neste mundo mesmo, que devemos transformar em Reino de Deus. Não te recordas da visita de Nicodemos ao divino Mestre, quando o Senhor asseverou convincente: “importa nascer de novo”?

            Ante o sinal afirmativo de Quinto Varro, o ancião continuou:

            - Também sofri muito, quando, ainda jovem, me decidi ao trabalho da fé. Repudiado por todos, fui compelido a distanciar-me das Gálias, onde nasci, demorando-me por dez anos consecutivos em Alexandria, onde renovei os meus conhecimentos. A igreja de lá permanece aberta às mais amplas considerações, em torno do destino e do ser. As ideias de Pitágoras são ali mantidas em um grande centro de estudos, com real proveito, e, depois de ouvir atentamente padres ilustres e adeptos mais esclarecidos, convenci-me de que renascemos muitas vezes na Terra. O corpo é passageira vestidura da nossa alma que nunca morre. O túmulo é ressurreição. Tornaremos à carne, tantas vezes quantas se fizerem necessárias, até que tenhamos alijado todas as impurezas do íntimo, como o metal nobre que tolera o cadinho purificador, até que arroje para longe dele a escória que o desfigura.

            Corvino fez ligeiro intervalo, como a dar oportunidade à reflexão dos ouvintes e prosseguiu:

            - Jesus não falava simplesmente ao homem que passa, mas, acima de tudo, ao espírito imperecível. Em certo passo dos seus sublimes ensinamentos, adverte: “melhor será entrares na vida aleijado que, tendo duas mãos, te aproveitares delas para a descida às regiões inferiores”. Refere-se o Cristo ao mundo, como escola em que procuramos o nosso próprio burilamento. Cada qual de nós vem à Terra, com os problemas de que necessita. A provação é remédio salutar. A dificuldade é degraus na grande subida. Nossos antepassados, os druidas, ensinavam que nos achamos num mundo de viagens ou em um campo de reiteradas experiências, a fim de que possamos alcançar, mais tarde, os astros da luz divina para sermos um com Deus, nosso Pai. Criamos o sofrimento, desacatando as leis universais e suportamo-lo para regressar a harmoniosa comunhão com elas. A justiça é perfeita. Ninguém chora sem necessidade. A pedra suporta a pressão do instrumento que a desgasta, a fim de brilhar soberana. A fera é conduzida à prisão para domesticar-se. O homem luta e padece para aprender a reaprender, aperfeiçoando-se cada vez mais. A Terra não é o único teatro da vida. Não disse o próprio Senhor – a quem pretendemos servir – que “existem muitas moradas na Casa de nosso Pai”? O trabalho é a escada luminosa para outras esferas, onde nos reencontraremos, como pássaros que, depois de se perderem uns dos outros, sob as rajadas do inverno, se reagrupam de novo, ao sol abençoado da primavera.

            Passando a mão pelos cabelos brancos, o velho acentuou:

            - Tenho a cabeça tocada pela neve do desencanto... Muitas vezes, a agonia me visitou a alma cheia de sonhos... Em torno de meus pés, a terra fria me solicita o corpo alquebrado, mas dentro do meu coração a esperança é um sol que me abrasa, revelando em suas projeções resplendentes o glorioso caminho do futuro... Somos eternos, Varro! Amanhã, reunir-nos-emos, felizes, no lar da eternidade, sem o pranto da separação ou da morte...

            Uma bela lição para o perdão, a compreensão das intenções e atos do próximo, controlando os impulsos da vingança, de ciúme, da revolta, do orgulho e vaidade, e desenvolvendo a humildade. O velho instrutor só foi infeliz ao caracterizar os discípulos do Cristo como “escravos”, essa não era a intenção do Cristo nem os que lhe acompanhavam queriam ser submetidos dessa forma.


Publicado por Sióstio de Lapa em 02/06/2019 às 00h31
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01/06/2019 00h31
ORAÇÃO JUNHO 2019

            Pai, deixa eu repousar em Teu colo. Sinto-me cansado, mas com tanta estrada ainda a caminhar. Sei que estás comigo e a Tua presença me alivia, encoraja, motiva... mas, sempre chega o cansaço.

            Queria ficar noite e dia no caminho, dando um passo após outro, mas meu veículo corporal exige repouso, não posso ir além dos seus limites, mesmo lhe dando prazeres às vezes exagerados.

            Tenho que repousar, meditar, ouvir o que queres dizer para mim. E só posso ouvir se fizer silêncio dentro de minha alma, retirar do coração e da mente todo o barulho do mundo externo, material, cheio de interesses supérfluos.

            Sim, ouço a Tua voz a me advertir, que os compromissos materiais podem estar atrelados aos compromissos espirituais, que não posso procrastinar um sem ser displicente com o outro. Lembra que todos os caminhos que colocou à minha disposição estão dentro do mundo material, mesmo que tenham finalidades espirituais.

            Isso funciona como uma academia, explica Ele para mim. A cada caminho que coloco a tua frente, e que você assume caminhar por ele, é como se um peso fosse colocado em suas costas. Quanto mais caminho, mais peso, mais difícil a caminhada. Mas percebas, que a escolha é tua. Se o cansaço chega, se não consegues mais ir avante, não desesperes, o tempo acolhe, refrigera, atenua, alivia e prepara para nova retomada no caminhar. Mesmo que por algum motivo não consigas mais dar um passo, pois algo interferiu fortemente nas suas condições, eu estarei presente e se for necessário poderei te levar nos braços, como já aconteceu com tantos e tantos irmãos teus.

            Sentia a brisa ao redor do meu corpo, os sons da natureza, a manifestação da vida que fazia orquestra com os sons do meu coração, da minha respiração. Entendi que eu estava mergulhado em Deus, que eu fazia parte da natureza que era parte dEle, e que por mais que eu ficasse cansado ou inoperante era com Ele que eu continuava me relacionando.

            Lembrei das palavras do mestre Jesus, Vós sois deuses. Tinha dificuldade de compreender essa verdade, como poderia eu ser Deus? Agora entendo melhor, que sou uma fagulha simples e ignorante, vinda da Sua origem. Assim como possuo trilhões de células em meu corpo e que algumas delas deixo cair de volta ao seio da Terra, que podem ser reprocessadas e voltarem de novo para mim, de forma inconsciente. No meu caso, devo voltar para Deus consciencialmente, pois jamais eu deixei de estar nEle e Ele em mim... assim, sei que eu estou reformulando minha consciência.


Publicado por Sióstio de Lapa em 01/06/2019 às 00h31
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31/05/2019 00h27
REFLEXÕES DE UM LÍDER

            Encontrei em Caicó-RN, grata surpresa, um livro escrito por Winston Spencer Churchill, em 1948, que a título de prefácio, coloco aqui como reflexões daquele líder do passado para nossas reflexões atuais.

            Como nos volumes anteriores, adotei tanto quanto me é possível, o método das Memoirs of a Cavalier, de Defoe, em que o autor pendura a crônica e a discussão dos grandes acontecimentos militares e políticos no fio das experiências pessoais de um indivíduo. Sou, talvez, o único homem a ter passado em altos postos governamentais pelos dois maiores cataclismos da história escrita. Enquanto na Primeira Guerra Mundial ocupei cargos de responsabilidade, porém subalternos, neste segundo embate com a Alemanha fui, durante mais de cinco anos, o chefe de governo de Sua Majestade. Escrevo, pois, de um ponto de vista diferente, e com mais autoridade do que era possível em meus livros anteriores. Não descrevo esta obra como história, pois isso fica a cargo de outra geração. Mas assevero, confiante, que ela é uma contribuição para a história que há de ser útil ao futuro.

            Estes trinta anos de ação e de tomada de posição abarcam e expressam o esforço de minha vida, e muito me alegra ser julgado por eles. Ative-me à minha norma de jamais criticar qualquer ação de guerra ou de política depois de ocorrida, a menos que tenha expressado pública ou formalmente, em ocasião anterior, opinião ou advertência a respeito. Na verdade, em retrospectiva, abrandei muitas das arestas de controvérsia contemporânea. Foi-me doloroso registrar essas discordâncias com tantos homens de quem eu gostava ou a quem respeitava; mas seria um erro não expor as lições do passado perante o futuro. Que ninguém escarneça dos homens honrados e bem-intencionados de cujos atos faço a crônica nestas páginas, sem vasculhar seu próprio coração, sem reexaminar seu próprio desempenho nas obrigações públicas e sem aplicar as lições do passado à sua conduta futura.

            Não se vá supor que eu esperasse concordância de todos com o que digo, e menos ainda que eu escreva apenas o que será bem-aceito. Dou meu testemunho de acordo com a luz que me norteia. Todo o cuidado possível foi tomado para verificar os fatos, mas muitas coisas estão constantemente vindas à tona a partir da divulgação de documentos capturados ou de outras revelações capazes de introduzir uma nova faceta nas conclusões que extraí.

            Certo dia o presidente Roosevelt disse-me que estava pedindo sugestões, publicamente, sobre como se deveria chamar esta guerra. Retruquei de pronto: “a Guerra Desnecessária”. Nunca houve guerra mais fácil de impedir do que esta que acaba de destroçar o que restava do mundo após o conflito anterior. A tragédia humana exige o seu clímax no fato de que, após todos os esforços e sacrifícios de milhões de pessoas, e após as vitórias da Boa Causa, ainda não encontramos Paz ou Segurança e estamos sujeitos a perigos ainda maiores do que aquele que superamos. É minha ardente esperança que a ponderação sobre o passado possa servir de guia nos dias que estão por vir, possa permitir a uma nova geração reparar alguns erros de anos anteriores e conduzir, de acordo com a necessidade e a glória do homem, o terrível quadro que se descortina no futuro.

            Churchill escreveu esse texto em 1948, três anos após o fim da Segunda Guerra Mundial. Chama a atenção para nós, a nova geração, para que possamos reparar alguns erros e nos conduzir adequadamente dentro do terrível quadro que se descortina no futuro. Que terrível quadro é este? O clima de hostilidade, perversidade e mentiras que impera no mundo e nos deixa combatentes contra nós mesmo? A orientação que ele deu ontem, permanece muito útil nos dias de hoje: “que ninguém escarneça dos homens honrados e bem-intencionados sem vasculhar seu próprio coração, sem reexaminar seu próprio desempenho nas obrigações públicas e sem aplicar as lições do passado à sua conduta futura. ”

            Apesar de não estarmos em guerra declarada, pelo menos aqui no Brasil, temos a impressão que estamos no clímax das iniquidades, que mesmo após os esforços de tantos valorosos companheiros nas trincheiras do Bem, sacrificados aos milhões, ainda não encontramos a Paz e Segurança que tanto almejamos e estejamos sujeitos a perigos maiores do que aqueles que já enfrentamos.

            Ave Cristo!


Publicado por Sióstio de Lapa em 31/05/2019 às 00h27
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30/05/2019 00h27
COMPANHEIRO (09)

            Símão Pedro Bar Jonas ou Cefas, era natural de Betsaída, mudou-se para Cafarnaum, do outro lado do Mar da Galileia. Era homem simples e bondoso, porém quando irritado, enérgico e por vezes violento. Passados alguns minutos, arrependia-se de sua reação chegando até as lágrimas. Seu irmão André o assessorava na pesca e era quem refletia com ele em certas discussões. Era grandalhão e forte, desconhecia dificuldades suas e dos outros que não estivesse pronto a resolver, somente com o interesse de servir. Foi grande admirador de João Batista, tanto que não perdia suas pregações à beira do Jordão. Foi o primeiro a ter o privilégio de ouvir o “segue-me” de Jesus.

Ao certificar-se da notícia do novo Messias, André, embora com muito respeito a João Batista, insistiu, como se tivesse inspirado pelos céus, para que Pedro fosse vê-lo.

Foi esse Pedro que o dedo de Cristo escolheu como pedra angular da nova doutrina de amor e paz que o mundo iria conhecer. Foi a porta de entrada pela qual os outros discípulos entraram.

            Ocorreu um fato interessante que reforçou a crença de Pedro em que o Mestre era realmente um enviado divino.

            O Cristo viu uma mãe aflita lhe expor seu filho paralítico, com acentuado escândalo, gritando, chorando e pedindo socorro. Reconhecendo o Messias, ela não queria perder a oportunidade de ser abençoada juntamente com seu filho. Vendo aquela situação, Pedro avançou para proteger o Mestre em meio à brutalidade peculiar das massas. Foi quando viu o carinho do Mestre em relação a mãe do doente, e mudando o seu foco de ação, ajudou o Mestre a descobrir o enfermo que estava deitado num cesto, esquelético, pernas mirradas.

Pedro ao ver aquele morto-vivo, esfriou o coração, era impossível curar... Mas, Jesus falou brandamente: Pedro, põe o enfermo em teu colo e ama-o como se fosse o teu próprio filho, que teu amor poderá curá-lo.

Ao abraçar o doente, envolvido com os maiores sentimentos de paternidade e carinho, viu o Mestre sorrir levemente: Ajuda-o, Pedro, e anda com ele!

Nisso o rapaz esticou as finas pernas, apoiado em Pedro, andando e gritando sobre a areia: Mamãe! Mamãe! Este é o Cristo de que a senhora falou!

            Daí a pouco estavam todos reunidos com o Mestre na grande casa emprestada em Betsaída, para que servisse de templo, e de onde surgiu a nova e engenhosa mensagem espiritual capaz de provar a humanidade que existe o amor...

Judas é convidado a orar. Depois da prece, Pedro emocionado pelos recentes acontecimentos, sente que Jesus lhe fala na acústica da alma: “Pedro, desliga-te um pouco da meditação, pois o que é demais costuma sobrar, e a sobra, por vezes, é desperdício de energia.” Entendeu que deveria dizer alguma coisa, e começa a falar.

Mestre! Há muito tempo que me integro em vários grupos de homens, e em muitas modalidades me empenho. Eles, esses amigos, me chamam por gentileza, de Companheiro. Na sua profundidade, o que quer dizer esse tratamento?

            Jesus, com serenidade responde: Pedro! Ser companheiro não é apenas ser amigo dos que comungam dos nossos ideais. É acompanha-los em alguns dos seus também.

Não podemos dizer que é a fusão completa de todos os sentimentos de pessoas ou grupos de almas. Deixemos esse fenômeno difícil para o amor.

Acompanhar os outros é o que tu fazes, em alguns casos, no labor da tua pesca. É ajudar sempre, dentro das possibilidades, aos que se envolvem em dificuldades, sem se empenhar no ganho. O prazer de ajudar por ajudar é que nos torna verdadeiros Companheiros do beneficiado.

            Quando somos o alvo da assistência é que nos certificamos de quanto é bom ter Companheiros fiéis ao lema: um por todos e todos por um.

O amor, Pedro, se divide em modalidades infinitas e uma delas representa o assunto levantado por ti. Essa virtude divina se ramifica em repartes sem conta, procurando despertar nos corações todos os tipos de sentimento do bem, que uns veem como Companheirismo. Outros veem como tolerância, bondade, além do trabalho, coragem, otimismo, fé, confiança e muitas outras virtudes. Qualidades provindas do amor.

            Pedro pensa e Jesus capta: “então a gente pode deixar de ser Companheiro de alguém sem que isso seja um desprezo de nossa parte? E aí, onde está a amizade? ”

- Pedro, eu deposito em ti a minha confiança pela fé com que podes despertar para a aliança com o Evangelho. Verdadeiramente te digo que podes deixar por algum tempo de ser Companheiro de alguém, ou de algum grupo de irmãos, quando estes se esfriarem em seus ideais mais nobres. O Companheiro do bem é aquele que alimenta nos outros o entusiasmo pelas coisas que o bom senso sempre aprovou. A amizade, pois, pode perdurar até que venha a se coadunar de novo com as qualidades de intenções. Mesmo vivendo distante um do outro, o elo da fraternidade pode vibrar, e por esse caminho, algum dia o amor é convidado a transitar.

            É bom não esquecermos, meu filho, que há casos em que dois amigos, dedicados ao bem comum, não são companheiros na extensão profunda da palavra, porque do dever a que um foi chamado o outro foi dispensado, e vice-versa. Porém, reconhecem que todo o bem se converte para a felicidade.

O Evangelho pede dedicação de todos vós e, em casos apropriados, sacrifícios. Sois os primeiros a se iluminarem, portanto, é justo que deveis ser os primeiros a dar o testemunho de fidelidade a Deus.

            Nesta comunidade que ora se inicia e para a qual fostes escolhidos antes de nascerem, eu desejo que todos sejam meus Companheiros, e o regozijo é todo meu, se fizerdes o que eu faço.

Continua, Pedro, a aderir às boas ações dos que desejarem praticá-lo e aprende com eles o que ainda não sabes. E é bom que o faças com humildade, porque a pretensão escorraça o entendimento.

Pedro, o que quero acrescentar, para que tenhas mais confiança, é que não deves esmorecer nas lutas que abraças pela Boa Nova do Reino de Deus. Se a tua consciência estiver tranquila pelo ideal do bem que alimentas no coração, segue avante, que algum dia, em nome de Deus, haverá um só rebanho e um só pastor, onde todos, mas todos, se unificarão na verdade, e a verdade vos levará ao amor.

É muito justo que a tua preocupação cresça diante de tanto desajuste que presencias no convívio com os outros. Não deixes que essa preocupação prejudique as tuas sensibilidades, que foram feitas para trabalhos mais nobres. O que presencias é fração dos acontecimentos do mundo, e, se pudésseis vê-los de uma só vez, esmorecerias, achando sem solução os problemas da humanidade. Contudo, se queres dar a tua cooperação, podes fazê-lo logo, principiando por um sorriso aos enfermos, dividindo o teu alimento com o faminto e ofertando tua túnica ao nu, conversando com os desesperados e dando exemplo de trabalho aos preguiçosos.

Nunca deves alimentar ideias negativas, porque, se Deus, na nossa compreensão, pensou para fazer o mundo, a nossa razão nos diz que os nossos pensamentos podem fazer alguma coisa de boa ou de ruim, dependendo do nosso estado de alma. A faculdade de pensar que temos, é a maior que desfrutamos por enquanto por misericórdia do Criador.


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Imagem de cabeçalho: Sergiu Bacioiu/flickr