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A IDADE DA TERRA (Bíblia 2)
Assistindo ao documentário “Cosmos: A Spacetime Odyssey” na Netflix, vi no episódio 7, “Sala Limpa”, argumentos interessantes sobre a pesquisa quanto a idade da Terra que achei importante reproduzir para depois refletir.
As pessoas têm questionado sobre a idade da Terra desde a antiguidade. Em 1650, o arcebispo James Ussher da Irlanda, fez um cálculo que pareceu resolver a questão. Como quase todo mundo de sua época e de seu mundo, ele aceitou a conta bíblica da criação como algo certo. Mas a Bíblia não informa anos exatos, então Ussher procurou um evento no Velho Testamento que correspondesse a uma data histórica conhecida. E encontrou no segundo Livro de Reis a morte do monarca babilônico Nabucodonosor em 562 aC. Ussher somou as gerações de profetas e os patriarcas, as 139 linhas genealógicas do Velho Testamento entre Adão e o tempo de Nabucodonosor. E descobriu que o mundo começou no dia 22 de outubro do 4004 antes de Cristo, às seis da tarde. E era um sábado.
A cronologia do arcebispo Ussher foi recebida como palavra sagrada no mundo ocidental, até consultarmos outro livro para descobrirmos a idade da Terra, aquela que foi escrita nas próprias rochas.
A maioria das camadas de rocha nas encostas do Grand Canyon é feita de sedimentos, depositados como grãos finos em uma época em que havia um mar nesse lugar. durante as eras, os sedimentos foram comprimidos em rocha sob o peso das camadas sucessivas, com as mais antigas no fundo. Podemos escolher uma camada desse local, qualquer uma. Houve uma época em que deveria ter água rasa ali. No período pré-cambriano, há cerca de um bilhão de anos, havia apenas um tipo de vida. Umas bactérias verde-azuladas, ocupadas aproveitando a luz solar e fabricando o oxigênio. Para elas era apenas um resíduo, mas para os animais que evoluíram posteriormente, inclusive nós, foi um sopro de vida.
Vamos escolher outra camada. Uma camada conhecida como Xisto “Bright Angel”. Foi formada há cerca de 530 milhões de anos. Possui pegadas que foram deixadas há 260 milhões de anos. Quer saber a idade da Terra? Descubra quanto tempo levou para depositar cada camada e aí, em vez de contar as “linhas genealógicas”, basta contar todas as camadas. Fácil, certo?
Só tem um problema. Sabemos por observar esse processo, porque ele ainda acontece hoje nos oceanos e lagos do mundo, que os sedimentos podem ser depositados a taxas muito diferentes. Geralmente acontece muito devagar, digamos a 30 cm de sedimento a cada mil anos. Mas quando há uma rara inundação catastrófica pode acontecer bem mais rápido, até 30 cm em apenas alguns dias.
Muitos geólogos tentaram esse método para calcular a idade da Terra. Usaram o Grand Canyon e outras sequencias sedimentares pelo planeta. Contudo suas respostas diferiram muito para serem úteis, ficaram entre três milhões e quinze bilhões de anos.
E houve outros problemas com esse método, nem mesmo as camadas mais profundas de rocha são os materiais mais antigos na Terra. Por que? Nem mesmo as rochas sobreviveram à infância violenta da Terra. No espaço, a história é outra.
Há alguma recordação de quando a Terra nasceu, objetos que podem nos dizer sua verdadeira idade? Existe um lugar onde podem ser encontrados os tijolos que sobraram da criação do nosso Sistema Solar. E esse lugar fica entre as órbitas de Júpiter e Marte. Aí está o material da Terra recém-nascida, à deriva em um depósito frio, inalterado desde aquela época.
Há cerca de um milhão de anos um grande asteroide causou o desvio de outro bem menor, colocando-o em uma nova trajetória, uma rota de colisão que terminou numa noite há cinquenta mil anos. Deve ter destruído a paz no Grand Canyon quando passou pelo céu até explodir numa cratera no estado que um dia seria conhecido como Arizona.
Fragmentos do asteroide de ferro que causou a cratera sobreviveram intactos. Se soubéssemos há quanto tempo esse ferro foi forjado saberíamos a idade do Sistema Solar, incluindo a Terra. Mas como poderíamos saber isso? Vamos escolher uma rocha (pedra), qualquer uma encontrada no solo. Alguns átomos nessa rocha podem ser radioativos, o que significa que eles espontaneamente se desintegram e se tornam outros elementos. Um átomo de Urânio primeiro se torna um átomo de Tório. Em média isso leva alguns bilhões de anos. O Tório é muito mais instável. Em menos de um mês ele vira Protactínio. Um minuto depois o Protactínio se transforma em outro elemento. O átomo passa por mais dez transmutações nucleares até chegar a última parada na cadeia de decaimento. Um átomo estável de chumbo. E como chumbo continuará até a eternidade.
No século vinte houve um grande esforço que durou décadas para medir o tempo que leva para cada elemento radioativo se transmutar em outro elemento. Os físicos descobriram que os átomos de cada elemento instável decaem a uma taxa constante. O núcleo de um átomo é um tipo de santuário imune aos choques e reviravoltas de seu ambiente. Bata nele com um martelo. Ferva-o em óleo. Vaporize-o. O relógio nuclear continua funcionando mantendo um padrão absoluto de tempo que não depende do sol ou das estrelas. Quer melhor forma de entender a idade verdadeira da Terra do que com o átomo de Urânio?
Se soubermos qual a fração de Urânio em uma rocha que se transformou em chumbo, é possível calcular quanto tempo se passou desde que a rocha se formou. Mas há um problema. As rochas na Terra que estavam presentes quando ela se formou não mais existem. Todas foram trituradas, derretidas, refeitas.
Há uma forma de calcular a quantidade de chumbo que estava presente desde o começo. É um presente dos céus: os meteoritos. Podemos ter um fragmento daquele que causou a cratera gigante no Arizona. A quantidade de chumbo dentro desse meteorito é exatamente a mesma de quando a Terra se formou. Como já sabemos a taxa constante à qual o Urânio decai, teríamos como saber a idade do meteorito que foi criado na mesma época que a Terra. Bastaria medir a quantidade de chumbo em meteoritos. Fácil, né?
Um cientista chamado Harrison Brown da universidade de Chicago, entendeu o conceito em 1947. Ele escolheu um jovem aluno, Clair Patterson, para fazer o trabalho.
Patterson não podia imaginar como essa tarefa alteraria o curso de sua vida. E da nossa. O que parecia ser pura pesquisa científica acabou sendo muito mais.
Clair Patterson, filho de um carteiro de Iowa era rebelde por natureza e não era um bom aluno. Mas era um cientista nato. Esse geólogo, Brown, deu a Patterson o que pareceu ser uma tarefa científica sem segredos.
- Para começar, Pat... posso chamá-lo de Pat? Então, sei que não é geólogo, provavelmente não sabe diferenciar granito de feldspato, mas parece que sabe mexer num espectrômetro de massa. Casado?
- Sim. Com a Laurie. Ela é química também. Nós trabalhamos no projeto Manhattan juntos, em Oak Ridge.
- Ótimo. Bom, a primeira coisa que precisa saber, há uns cristaizinhos chamados de Zircônia. São pequenos como uma cabeça de alfinete, compactos e duros. Nada entra ou sai deles. E estou falando de bilhões de anos. Sabemos a idade desses grãos porque já datamos as rochas de onde eles vêm. Cada Zircônia dessas têm apenas algumas partes por milhão de Urânio dentro, e o Urânio está decaindo para quantidades ainda menores de Chumbo. Agora, se descobrirmos como medir esse chumbo saberemos como fazê-lo para um meteorito. Acha que consegue fazer isso, Pat?
- Sim, claro, e não vejo por que não conseguiria.
- Ótimo, porque quando o fizer será o primeiro homem a saber a idade da Terra. E será famoso. E vai ver que será fácil. Barbada!
Enquanto Pat tentava medir os resíduos de chumbo nos grãos de Zircônia, outro aluno, George Tilton, estava medindo a quantidade de Urânio nos mesmos grãos. Tudo que Patterson precisava fazer era medir a quantidade de chumbo com igual precisão.
- É toda sua Pat, medi seis vezes. O mesmo resultado: 3,2 partes por milhão.
- Muito bem, George, obrigado.
Os resultados de Tilton foram sempre os mesmos. Mas os resultados de Patterson em relação ao conteúdo de chumbo dos grãos eram inconsistentes. Não faziam sentido. Será que o laboratório teria sido contaminado por experimentos anteriores com chumbo? Talvez fossem as quantidades altas de chumbo no ambiente que estavam alterando os resultados. Patterson fez tudo que podia para limpar qualquer resíduo de chumbo no laboratório. Meses se passaram. Ainda havia cem vezes mais chumbo do que deveria. Ele estava trabalhando nisso havia mais de dois anos.
- Barbada... sei...
Patterson percebeu que teria de ferver vasilhames e ferramentas em ácido e purificar todas as suas substâncias químicas para reduzir ainda mais o chumbo no laboratório.
Toda a limpeza e esterilização de Patterson ainda não havia resolvido o problema. Ele precisava projetar o seu próprio laboratório e construí-lo do zero.
A oportunidade surgiu quando Harrison Brown veio para o Instituto de Tecnologia da Califórnia em Pasadena e convidou Patterson para vir junto.
Fazia seis anos que Patterson estava monitorando e eliminando as muitas fontes de chumbo que estavam comprometendo seus instrumentos. Ele havia construído a primeira sala ultralimpa do mundo. Finalmente conseguiu medir quanto chumbo estava efetivamente na rocha, uma rocha cuja idade já havia sido estabelecida. Agora, finalmente, Patterson estava pronto para lidar com o meteorito de ferro para descobrir a verdadeira idade da Terra.
Ele levou sua amostra de meteorito de volta ao laboratório Nacional de Argonne onde o espectrômetro de massa mais preciso do mundo havia acabado de entrar em funcionamento.
Um espectrômetro de massa usa imãs para separar os elementos contidos em uma amostra para que cada elemento possa ser quantificado. Talvez aquela fosse a última peça do quebra-cabeça da verdadeira idade da Terra.
Depois de isolar a amostra de qualquer contaminação com chumbo externo, Patterson finalmente estava pronto para medir a quantidade de Chumbo e Urânio na amostra e calcular há quantos anos ele havia se formado. A idade real da Terra. Após aplicar diagrama geomorfológico, curva de crescimento... encontrou:
O mundo tem quatro bilhões e meio de anos.
Esse trecho do documentário levanta duas reflexões. Primeiro, o erro em querer usar a Bíblia como livro de referência para a constatação de fatos usando o método da ciência, da realidade das circunstâncias materiais. A Bíblia é um livro escrito dentro de um contexto espiritual, então outras fontes de informações são utilizadas com prioridade, sem necessidade de passar pelo crivo científico, como a intuição e a revelação, por exemplo. Esse campo de informações transcendentais é importante para a compreensão e responsabilidade da evolução moral do espírito e que deve ser coerente com a avaliação material e ética do corpo biológico e demais instâncias materiais.
Segundo, fazendo paralelo do corpo com o átomo, observo quer o átomo possui o núcleo em sua intimidade protegido por uma “atmosfera” de elétrons muito distante e que protege-o de choques ou influências externas diretas. Nenhuma força do ambiente consegue vencer a barreira de elétrons e afetar o núcleo. No entanto, ele sofre um processo de decaimento ao longo do tempo. O corpo também possui o seu espírito localizado bem distante em sua intimidade e nenhuma força externa consegue atingi-lo diretamente. Isso só pode acontecer, de forças externas atingir o espírito, através da intermediação do perispírito, uma entidade semimaterial, composta por substância do corpo e do espírito. De forma parecida com o núcleo do átomo, o espírito deve sofrer uma transformação, uma evolução moral, com os relacionamentos que desenvolve no meio ambiente através do corpo que influencia o perispírito.
É interessante essa compreensão, pois podemos fazer uma boa comparação do que acontece com a evolução espiritual com a evolução material, considerando o corpo e a nuvem de elétrons, respectivamente.
Sióstio de Lapa
Enviado por Sióstio de Lapa em 29/06/2015
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