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SAÚDE MENTAL, ESPIRITUALIDADE E GRUPOS DE MÚTUA AJUDA
Por ocasião de uma entrevista feita na TV União, e que foi ao ar na quinta-feira, dia 23-05, foram abordadas as seguintes questões que coloco aqui para nossa reflexão.

01. A ESPIRITUALIDADE PODE CONTRIBUIR PARA A SAÚDE MENTAL?
Sim, a espiritualidade está dentro do contexto da saúde mental, entendendo a mente como um produto saudável do cérebro saudável onde são intercambiáveis os impulsos biológicos oriundos do corpo, dos instintos, de natureza egoísta, e os impulsos oriundos do espírito, de natureza moral. Com o advento de uma Inteligência mais elaborada, a partir de maior complexidade cerebral, maior quantidade de neurônios de associação e desenvolvimento do córtex pré-frontal, ficamos capacitados para entender as leis morais, a partir da Sabedoria criadora, e as dimensões da existência, material e espiritual. Entendemos que é nossa obrigação enquanto ser espiritual, domesticar os impulsos instintivos, nos afastando da condição animal e nos aproximando da humana. Jesus Cristo foi o grande mestre que nos ensinou a domesticar esses impulsos animais, aplicando a lei do amor incondicional em todos os aspectos da vida. Essas instruções hoje fazem parte das modernas formas de psicoterapia, para ajustar a nossa consciência a essas leis morais e assim promover a saúde mental capaz de nos elevar enquanto ser humano em direção a Fonte criadora (Deus, nas suas diversas sinonímias)

02. OS GRUPOS DE MÚTUA AJUDA, QUE SÃO?
Os grupos de mútua ajuda, formados a partir da literatura de Alcoólicos Anônimos, desenvolvem uma relação fraterna com os seus membros, caracterizados por sofrerem alguma forma de dependência que deixa a mente subordinada ao prazer que determinada ação provoca, mesmo que isso leve a deterioração de todos os aspectos saudáveis da vida. O paciente que se torna doente por ter desenvolvido essa dependência, geralmente não consegue sair dessa situação, como se tivesse preso por algemas invisíveis ao seu carrasco. Conhecedores que os recursos da medicina tradicional não conseguem reverter o processo de dependência e levar à cura, os pacientes descobrem que nesse diálogo com outra pessoa, também dependente, ambas se fortalecem e conseguem manter a sobriedade tão desejada.

03. ELES DESENVOLVEM TAMBÉM A ESPIRITUALIDADE?
Sim, os grupos de mútua ajuda, que irei representar aqui por Alcoólicos Anônimos (AA) desenvolvem a espiritualidade, condição que não é desenvolvida nas terapêuticas tradicionais, acadêmicas, e isso é o que faz a diferença. O segundo passo das instruções do AA para aquele que deseja parar de beber, aceitar a ajuda de um poder superior que irá lhe fortalecer dentro da sobriedade.

04. A MEDICINA TRADICIONAL NÃO RESOLVE A DEPENDÊNCIA QUÍMICA?
Não, a medicina tradicional desenvolve moléculas cada vez mais competentes para interferir nos sistemas de neurotransmissão à nível cerebral, colaborando para corrigir sintomas de depressão, insônia, ansiedade, delírios, psicoses, etc., mas não consegue corrigir a compulsão do dependente pela substância, mesmo que este seja internado em hospitais especializados, por curto ou longo prazo.

05. COMO SE MANIFESTA A ESPIRITUALIDADE NOS GRUPOS DE MÚTUA AJUDA?
Primeiro, a pessoa deve aceitar a existência desse poder superior, capaz de lhe ajudar na recuperação da sanidade, da incapacidade de resistir ao primeiro gole. Sabendo que é impotente frente ao poder do álcool, que ninguém até o momento conseguiu lhe ajudar para atingir a sobriedade que tanto deseja, como último recurso ele experimenta sentir esse Poder Superior em sua vida. Quando ele participa de uma reunião de AA e um colega vai à cabeceira de mesa fazer um depoimento de sua vida, ele percebe que aquela pessoa está falando com uma autoridade sobre si mesmo, como se tivesse reconhecendo a falha que ele tinha em controlar os seus impulsos de se embriagar. E quem poderia estar ali, naquele momento, admoestando o passado do seu corpo? O espírito! É neste momento, no ambiente daquela sala de reunião, com o depoimento de cada espírito que vai falar sobre os malfeitos do seu corpo, que surge a egrégora (força espiritual que se forma a partir da soma de energias mentais coletivas), manifestação do Poder Superior, que fortalece a cada um dos presentes. Por esse motivo. É importante a frequência regular de cada membro às reuniões, para a formação dessa egrégora para benefício pessoal, dos colegas que lá estão e dos convidados que por acaso decidam ir conhecer a irmandade.

06. QUAIS SÃO OS CUSTOS PARA PARTICIPAR DOS GRUPOS DE AA?
Qualquer pessoa pode visitar e participar das reuniões de AA sem nenhum custo. Caso aceite entrar para a irmandade, então, em cada reunião deve colaborar na medida dos seus recursos com a chamada “sacola da gratidão”, para custear todas as necessidades a nível local, regional e nacional, sem a colaboração financeira de nenhuma entidade externa, seja física ou jurídica.

O7. COMO PODEMOS ENCONTRAR OS GRUPOS DE MÚTUA AJUDA?
Os grupos de mútua ajuda podem ser encontrados em quaisquer bairros das capitais e em quase todos os municípios do interior.

08. COMO A PESSOA PODE INGRESSAR EM GRUPOS DE MÚTUA AJUDA?
Caso reconheça a impotência frente ao álcool, a pessoa decide entrar por vontade própria sem nenhum tipo de coerção. Mas, a família e os patrões podem fazer pressão para o doente procurar uma forma de tratamento, sob pena de sofrer punição, inclusive com separação conjugal ou com demissão.  

09. OS GRUPOS PODEM FAZER ABORDAGENS NAS RESIDÊNCIAS?
Sim, tanto nas residências quanto nas instituições, desde que a família ou os patrões queiram enfrentar o problema e peça ajuda da irmandade para apresentar sua filosofia e objetivos.

10. QUAIS SÃO SUAS CONSIDERAÇÕES FINAIS?  
Uma orientação tanto para os parentes quanto para os patrões desses dependentes químicos: não colaborem com a doença! Quando os problemas surgirem em decorrência da embriagues, como acidentes, falta ao trabalho, brigas, envolvimento policial, etc., deixe a própria pessoa resolver as questões. Pois se tiver alguém sempre resolvendo esses problemas, jamais a pessoa irá se conscientizar dos problemas que causa e não irá ter motivação de procurar o tratamento. Importante diferenciar o doente da doença. Quando ele estiver intoxicado, a doença está presente e deve ser tratada com todo o rigor, pois a mente está incapacitada de analisar de forma clara os argumentos que sejam colocados. Quando a pessoa estiver desintoxicada, é o momento que o doente deve ser abordado com carinho, afeto e firmeza, mostrando os problemas que está causando e a opção de tratamento. Nessa ocasião é que se torna importante a visita de membros de AA na residência ou no local de trabalho para mostrar suas experiências.
Sióstio de Lapa
Enviado por Sióstio de Lapa em 27/05/2019
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