Livro I
O CERTO E O ERRADO COMO CHAVES PARA A COMPREENSÃO DO SENTIDO DO UNIVERSO
Livro I - O certo e o errado como chaves para a compreensão do sentido do universo. 1. A lei da natureza humana - 2. Algumas objeções - 3. A realidade da lei - 4. O que existe por trás da lei - 5. Temos motivos para nos sentir inquietos.
Prefácio
(continuação)
No Livro II, que trata da moral, também deixei que alguns assuntos passassem em branco, mas por outros motivos. Desde que servi na infantaria, durante a Primeira Guerra Mundial, me desagradam as pessoas que, cercadas de segurança e conforto, fazem exortações aos homens na frente de batalha. Do mesmo modo, reluto em falar a respeito de tentações às quais não estou exposto.
Nenhum homem, segundo penso, é tentado a cometer todos os pecados. A compulsão pelo jogo, por exemplo, foi deixada de fora da minha constituição; e, sem dúvida, o preço que pago por isso é faltar-me algum bom impulso do qual essa compulsão é o excesso ou a perversão. Logo, não me sinto qualificado para falar sobre o permitido e o proibido nessa questão: não me atrevo nem mesmo a dizer se nela existe o permitido.
Também não me pronunciei a respeito do controle de natalidade, pois não sou mulher, não sou nem mesmo um homem casado, nem sou sacerdote. Não caberia a mim emitir opiniões sobre as dores, os perigos e o preço daquilo de que estou protegido. Não exerço nenhuma atividade pastoral que me obrigue a isso.
Objeções bem mais profundas poderão fazer-se sentir - e foram expressas — a respeito do uso que faço da palavra cristão, significando aquele que aceita as doutrinas comuns ao cristianismo.
As pessoas me perguntam: "Quem é você para definir quem é e quem não é cristão?" Ou então: "Não é possível que um homem que não consiga crer nessas doutrinas seja muito mais verdadeiramente cristão, esteja muito mais próximo do espírito de Cristo, do que alguns que crêem nelas?" Essa objeção é, de certo modo, muito acertada, muito generosa, espiritual e sensível. Ela pode ter todas as qualidades imagináveis, menos a de ser útil. Simplesmente não podemos, sem causar um desastre, usar a linguagem como esses contestadores querem que a usemos. Tentarei esclarecer o assunto a partir da história do uso de outra palavra, muito menos importante.
Originalmente, a palavra gentleman tinha um significado evidente: o gentil-homem exibia um brasão e era senhor de terras. Quando dizíamos que alguém era um gentleman, não lhe estávamos fazendo um elogio, mas simplesmente reconhecendo um fato. Se disséssemos de um outro que não era um gentleman, não o estaríamos insultando, mas dando uma informação a seu respeito. Não havia contradição alguma em chamar John de mentiroso e de gentleman, assim como não há em dizer que James é um tolo e um bacharel.
Então, certas pessoas começaram a afirmar — com tanta propriedade, genero- sidade, espiritualidade, sensibilidade; com tudo, enfim, menos com praticidade: "Ah, mas o que faz um gentleman não são as terras nem o brasão; é o saber comportar-se. Será que o verdadeiro gentleman não é aquele que se porta como tal? Logo, será que Edward não é mais gentleman que John?" A intenção dessas pessoas era boa. Ser honrado, cortês e corajoso é, sem dúvida, coisa melhor do que ter um brasão familiar. Porém, não é a mesma coisa. Pior, é uma coisa sobre cuja definição as pessoas jamais chegarão a um acordo.
Chamar um homem de gentleman segundo esse sentido novo e mais refinado não é, na verdade, uma forma de dar informações a seu respeito, mas sim um modo de elogiá-lo: negar-se a chamá-lo de gentleman é simplesmente uma forma de insultá-lo. Quando uma palavra deixa de ter valor descritivo e passa a ser um mero elogio, ela não nos esclarece sobre o objeto, só denota o conceito que o falante tem dele. (Uma "boa" refeição é simplesmente uma refeição que agradou a quem fala.) Um gentleman, agora que o velho sentido prosaico e objetivo da palavra deu lugar ao sentido "espiritualizado" e "refinado", quase sempre significa apenas uma pessoa do nosso agrado.
O resultado é que hoje gentleman é uma palavra inútil. Já tínhamos no vocabulário palavras suficientes que expressam aprovação; não precisávamos de mais uma. Por outro lado, se alguém quiser utilizar a palavra em seu velho sentido (numa obra histórica, por exemplo), não poderá fazê-lo sem dar explicações. Ela já não serve para esse fim.
Ora, se permitirmos que as pessoas comecem a espiritualizar e refinar, ou, como elas diriam, "aprofundar" o sentido da palavra cristão, ela também vai rapidamente se tornar inútil. Em primeiro lugar, os próprios cristãos não poderão mais aplicá-la a ninguém.
Não cabe a nós dizer quem, no sentido mais profundo, está próximo do espírito de Cristo, pois não temos o dom de sondar os corações humanos. Não nos cabe julgar. Aliás, nos é proibido julgar. Para nós, seria uma maldosa arrogância dizer que um homem é ou não é cristão nesse sentido refinado. E, obviamente, uma palavra que não podemos aplicar não é de grande utilidade.
Já os descrentes ficarão exultantes, sem dúvida, de a utilizar neste sentido refinado. Em suas bocas, ela se tornará simplesmente um elogio. Quando chamarem alguém de cristão, estarão somente dizendo que o julgam uma boa pessoa. Este uso da palavra, porém, não enriquecerá a língua, pois já dispomos do adjetivo bom. Entrementes, a palavra cristão terá sido destituída da verdadeira utilidade que poderia ter.
Devemos, portanto, ater-nos ao sentido original, e óbvio, da palavra. O nome cristão foi empregado pela primeira vez em Antioquia (At 11:26) para designar "os discípulos", os que acataram os ensinamentos dos apóstolos. Não há, pois, por que restringir a palavra somente àqueles que tiraram o máximo proveito da instrução apostólica, nem estendê-la aos que, seguindo o sentido refinado, espiritual e interiorizado, estão "muito mais próximos do espírito de Cristo" do que o menos satisfatório dos discípulos.
A questão não é teológica nem moral, mas somente de usar as palavras de forma que todos possamos entender o que elas significam. Quando um sujeito segue uma vida indigna da doutrina cristã que professa, é muito mais claro dizer que se trata de um mau cristão do que chamá-lo de não-cristão.
Este argumento sobre o uso da palavra e seu significado escapa a nossa compreensão quando usamos a palavra cristão. A tendência natural é que a pessoa que segue os passos de Jesus de forma incorreta seja classificada como não-cristão, mas isso seria joga-lo para o exercito luciferino. Portanto, classificando ele como um mau cristão, ele permanece nas nossas trincheiras.