No livro do padre Ricard, Vigário de São Maurício, em Besançon ou Vesanção (comuna francesa situada no departamento de Doubs e na região de Borgonha-Franco-Condado) com o título “O Fim Trágico dos Perseguidores da Igreja”, podemos ler o seguinte prefácio de Ricardo Montovani, filósofo e Pós-Doutor em Apologética Cristã (LAVÔ – PUC/SP) e Doutor em Filosofia Política (USP) que nos dá uma ideia da Guerra Espiritual na qual estamos envolvidos, que saibamos ou não, que queiramos ou não.
Vejamos...
É impossível que o leitor da presente obra não se lembre, ao percorrer suas linhas, da “Legenda Áurea”. Afinal, apesar de seu teor religioso, ambos os textos são violentos. Contudo, enquanto, no clássico medieval, Jacopo de Varazze foca-se acima de tudo, nas torturas sofridas pelos mártires, em “O Fim Trágico dos Perseguidores da Igreja” é o sofrimento dos algozes que está em foco.
Seu autor, o padre Ricard – do qual pouco se sabe além de ter sido um abade francês do século XIX – divide tais algozes em três grupos ou tipos. Há aqueles que negam o próprio direito de existência da Igreja, caçando e assassinando os seus membros – a exemplo dos Caifás, dos Neros e dos Dioclecianos. Há também os que, atacando mais o espírito do que o corpo dos homens, não fazem senão perverter a santa doutrina – esses são os Ários e todos aqueles que submetem a religião a seus devaneios e caprichos. Por fim, há aqueles que pretendem subordinar a Igreja ao poder do Estado: são os Henriques e os Fredericos. Cada grupo desses é abordado em uma das três partes do livro do Pe. Ricard, que tem por objeto quase 18 séculos de história.
Ao se propor retratar as desventuras e padecimentos daqueles que ferem o corpo de Cristo, “O Fim Trágico dos Perseguidores da Igreja” se insere numa tradição de escritos apologéticos que remete, pelo menos, ao Romano Lactâncio. Com efeito, no “De Mortibus Persecutorum” (A Morte dos Perseguidores), uma obra da primeira metade do século IV, Lactâncio põe-se a descrever, em seus pormenores, as desditas dos imperadores que ousaram levantar seu braço contra os cristãos – tanto para atemorizar futuros carrascos quanto para consolar seus irmãos de fé. Note-se de passagem, que não são outras as metas do Pe. Ricard que, de resto, cita inúmeras vezes o escritor romano.
Todavia, faz-se pertinente a seguinte questão: estaria o abade francês nos propondo uma nova Teologia da História, na qual a Igreja, uma vez esmagados os seus inimigos pela Providência, instalaria o reino de Deus aqui, em pleno Vale de Lágrimas? Certamente, não é esse o caso.
Ora, o verdadeiro cristão só pode compreender a História como consumação do sacrifício de Cristo.
Esta leitura é interessante para a nossa compreensão dos dias atuais, onde estão os verdadeiros cristãos e seus torturadores e o que devemos esperar de quem está dos dois lados, quanto consequências materiais que podem ser colhidas aqui mesmo na dimensão material e na dimensão transcendental para onde todos iremos.