Lendo a carta Encíclica “Fratelli Tutti” do Santo Padre Francisco, sobre a Fraternidade e a amizade social, encontro o seguinte parágrafo, no item 8 da introdução, que trago aqui para a nossa reflexão.
Desejo ardentemente que, neste tempo que nos cabe viver, reconhecendo a dignidade de cada pessoa humana, possamos fazer renascer, entre todos, um anseio mundial de fraternidade. Entre todos: “Aqui está um ótimo segredo para sonhar e tornar a nossa vida uma bela aventura. Ninguém pode enfrentar a vida isoladamente (...); precisamos duma comunidade que nos apoie, que nos auxilie e dentro da qual nos ajudemos mutuamente a olhar em frente. Como é importante sonhar juntos! (...) Sozinho, corres o risco de ter miragens, vendo aquilo que não existe; é juntos que se constroem os sonhos”(Francisco – Ahmad Al-Tayyeb, Documento sobre a fraternidade humana em prol da paz mundial e da convivência comum ‘Abu Dhabi 4 de fevereiro de 2019’: L’Osservatore Romano ‘ed. Semanal portuguesa de 05/11/2019’, 21). Sonhemos como uma única humanidade, como caminhantes da mesma carne humana, como filhos desta mesma terra que nos alberga a todos, cada qual com a riqueza da sua fé ou das suas convicções, cada qual com a própria voz, mas todos irmãos.
Li esse pensamento e fiquei confuso. O Papa não é o representante de Deus na Terra? Deus não é o Pai, o Criador de todos nós? Nós não somos os Seus filhos? Por que o Pai não é citado nesse texto sobre a fraternidade? Pois o nome fraternidade evoca irmandade, que somos filhos do mesmo Pai. Por que o nome do Pai não é colocado como destaque? Como é que a riqueza da fé, que considera automaticamente outros pais criadores, com outras formas de pensamentos podem se irmanar na mesma fraternidade? Talvez o Papa queira destacar que apesar de termos pais diferentes temos a mesma mãe, a Mãe Terra, a Gaia da mitologia. Mas, não seria esse um desvio de função do Papa, o representante de Cristo, de Deus, que veio nos ensinar sobre a existência do nosso Pai e de como fazer a Sua vontade?
O sonho que o Papa, representante do Cristo deve ensinar, é que possamos amar ao Pai acima de qualquer coisa, material ou transcendental, que possamos fazer a sua vontade, fazer o bem onde for preciso, principalmente de orientar e ajudar os irmãos a seguir no Caminho da Verdade, evitando os vícios e defeitos que cada um possui, e cada vez mais nos aproximar da essência divina que é puro amor. Este sonho tem início com a aceitação da pessoa dessa filiação divina e que concorda em fazer a vontade do Pai para participar da família universal e assim construir o reino de Deus. Quem não está dentro desses propósitos não tem condições de fazer parte da família universal, por mais que tenhamos compaixão por eles e queiramos que ele se converta para a nossa realidade espiritual, eterna, ao lado do Pai. Este é o papel do verdadeiro representante do Cristo aqui na Terra, procurar convencer a todas pessoas que todos temos uma paternidade divina e assim possamos caminhar juntos, com a mesma fé. Isso não nos impede de caminhar juntos em busca da paz, da amizade social e tolerância mútua, mas todos sabendo qual é a nossa missão e em qual família estamos engajados e qual a nossa responsabilidade, de levar à frente o que o Cristo nos ensinou para salvação dos erros nos quais estamos dentro deles, consciente ou inconscientemente.
Francisco, Papa ad hoc.