Psiquiatra do RN defende integração entre espiritualidade e medicina na saúde mental
Médico potiguar defende que a medicina deve tratar corpo, mente e espírito de forma integrada e relata sua trajetória acadêmica, comunitária e espiritual marcada pelo compromisso com a dignidade humana
Redação
01/11/2025 | 05:37
O psiquiatra potiguar Francisco das Chagas Rodrigues, conhecido como Dr. Rodrigues, acredita que a compreensão integral do ser humano — mente, corpo e espírito — é essencial para o tratamento da saúde mental. Em entrevista à TV Agora RN nesta sexta-feira 31, ele defendeu a necessidade de integrar ciência e espiritualidade na prática médica e relatou a trajetória que o levou da vida acadêmica e política à atuação comunitária e espiritual.
“Tem uma ligação muito forte”, afirmou o psiquiatra ao comentar a relação entre espiritualidade e evolução dos quadros psiquiátricos. Para ele, compreender o sofrimento humano exige enxergar o corpo apenas como um “veículo de comunicação”, enquanto a consciência seria a verdadeira essência da vida. “Daqui a pouco, nós não teremos mais esse corpo, mas a consciência permanece viva. Ela não morre com a morte”, disse.
Médico psiquiatra e professor da UFRN, Francisco das Chagas Rodrigues em entrevista nesta sexta-feira à TV Agora RN, Professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Dr. Rodrigues leciona a disciplina optativa “Medicina, Saúde e Espiritualidade”. A matéria reúne exemplos de como diferentes religiões e filosofias de vida lidam com o sofrimento humano. “Mostramos para os alunos que existem várias formas de trabalhar a saúde e a espiritualidade no mundo todo”, explicou.
A defesa dessa abordagem, segundo ele, vem da própria observação clínica e do fato de ele seguir a doutrina espírita. Para ele, desequilíbrios emocionais e doenças podem ter origem em condutas morais equivocadas, nesta ou em vivências passadas. “O que você plantar aqui, de forma correta ou incorreta, vai receber os frutos. E esses frutos podem vir depois como doenças que a pessoa ignorante pode trazer, como alucinação, delírio, demência ou doenças físicas.”
Formado pela UFRN, Dr. Rodrigues é doutor pela Escola Paulista de Medicina (Unifesp), onde iniciou seus estudos em psicofarmacologia. “Trabalhava com animais, com ratos e camundongos, vendo os testes dos medicamentos, trabalhando com lítio para mostrar o efeito dele na saúde mental”, lembrou. Sua trajetória acadêmica o levou ao magistério, ministrando aulas de fisiologia em diversos cursos da universidade.
O interesse pela comunidade surgiu ainda nos anos 1980, quando atuou como médico em um posto de saúde do Conjunto Santa Catarina, em Natal. “Eu percebia que o trabalho que eu fazia enquanto médico clínico, era insuficiente para tanta dificuldade que as pessoas tinham com relação à sobrevivência: trabalho, exploração, miséria”, recordou.
A partir dessa vivência, ele passou a se engajar em ações sociais e a enxergar a medicina como instrumento de transformação coletiva. “Percebi que somente o trabalho médico não iria resolver essas questões. Era preciso se envolver com a comunidade”, resumiu.
Hoje, o psiquiatra mantém esse compromisso por meio de ações voluntárias na Praia do Meio, em Natal, onde desenvolve atividades espirituais e comunitárias com base nos princípios cristãos. “A gente faz esse trabalho levando para a comunidade esses princípios, fazendo o bem sem esperar deles nada de recompensa — nem dinheiro, nem voto, nem nada. Fazendo porque eles precisam de ajuda e nós podemos ajudar”, afirmou.
O médico vê essas iniciativas como antídoto ao egoísmo e ao materialismo crescentes na sociedade. “O egoísmo fala mais alto”, alertou, destacando que muitos dos males mentais da atualidade nascem da competição animal e do isolamento fraterno.”
“Nós estamos percebendo uma grande afronta à nossa qualidade de vida nesse contexto atual. A sociedade vive um progresso materialista, e o mais importante é o progresso espiritual”, avaliou. Para ele, a saúde mental não depende apenas de medicamentos ou terapias tradicionais, mas de uma reorganização ética e moral do modo de viver.
Com mais de quatro décadas de carreira, Dr. Rodrigues observa que as doenças mentais se tornaram mais frequentes e complexas. “A sociedade está mais adoecida”, disse. Ele relaciona o fenômeno à rotina urbana acelerada, ao excesso de telas e à desconexão espiritual das pessoas.
Para o psiquiatra, o desafio contemporâneo é equilibrar o avanço da tecnologia com valores humanos. “O crescimento material é isso: tecnologia e ciência. Mas o crescimento e a evolução espiritual são morais e éticos. Onde está a moral? Onde está a ética da vida com a gente, com os próximos?”, questionou.
Medicina, tecnologia e limites da ciência
Embora reconheça o papel dos medicamentos e das descobertas científicas, Dr. Rodrigues alerta que a ciência sozinha não basta. “O que existe são alternativas que podem até ajudar. Por exemplo, a psicofarmacologia é a minha área. Esses medicamentos são produzidos e colocados no mercado, cada vez mais potentes e eficazes. Mas são caros, e nem todos podem comprar”, explicou. Ele vê a medicina moderna como um campo que precisa recuperar a dimensão humanista e ética.
Segundo o psiquiatra, o avanço tecnológico deve vir acompanhado de reflexão sobre valores e propósito. “Todos estamos evoluindo, tanto do ponto de vista material quanto espiritual. Mas o progresso moral e ético está ficando para trás”, avaliou.
Acolhimento e solidariedade
Dr. Rodrigues afirma que a espiritualidade, quando bem compreendida, amplia a empatia do profissional de saúde e o compromisso com o próximo. “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Se nós fizermos isso, estamos irmanados. Não importa a religião que a gente esteja”, citou.
Essa visão o inspira a desenvolver novos projetos, como uma iniciativa voltada ao apoio de mulheres em situação de vulnerabilidade. “Estou entrando em contato com prostitutas e vou até nos bares e boates convidá-las para ver se fazemos uma atividade que lhes mostre um caminho fora desse trabalho tão árduo de profissionais do sexo, que elas proporcionam com tanta falta de dignidade”, revelou.
Ele reconhece que o projeto enfrenta preconceitos, mas insiste em seguir. “Posso até ser discriminado: ‘poxa, o doutor entrando num cabaré para falar com as prostitutas’. Mas é isso mesmo. Quero fazer o bem a elas sem esperar recompensa material”, afirmou.
Cristianismo e missão de vida
A doutrina espírita, segundo o psiquiatra, o ajudou a compreender melhor a dimensão espiritual da vida e o sentido da profissão médica. Ele vê em Cristo um modelo de transformação e liderança ética: “Jesus transformou o mundo com doze pessoas simples. A lição dele é de irmanar todos, como filhos de Deus, para crescermos juntos.”
Para o médico, a coerência entre fé e prática é o que define a verdadeira espiritualidade. “A justiça vai se cumprir quando esse cara voltar para cá e está lá sofrendo o que fez aos outros. A vida real é no mundo espiritual, não é aqui”, reforçou, “aqui na Terra é para provas e expiações, conforme a justiça de Deus que é incorrupta.”
Dr. Rodrigues acredita que o futuro da medicina caminha para a interdisciplinaridade e a humanização. “Nós podemos fazer alguma coisa no Brasil com o pensamento cristão. Quem quiser se recuperar pode vir até nós, pode ser um marginal, pode ser um bandido, ladrão ou corrupto, desde que se arrependa e procure mudar a vida, fazendo as reparações possíveis ao mau que fez”, declarou.
Na próxima semana, o psiquiatra participará do Congresso Brasileiro de Psiquiatria, no Rio de Janeiro, onde apresentará o trabalho que desenvolve na comunidade (Projeto de Extensão Universitária Foco de Luz e Associação Cristã de Moradores e Amigos da Praia do Meio ‘AMA-PM’) com base na espiritualidade. “O foco é mostrar que podemos fazer algo concreto na saúde mental, com acolhimento e transformação, assim como Paulo se transformou de perseguidor em apóstolo”, contou.
Ao final da entrevista, o médico resumiu seu propósito: unir conhecimento científico e sabedoria espiritual para devolver dignidade às pessoas. “Nós temos que trabalhar de forma honesta, seguindo a principal lição que Ele nos deu: amar o próximo como a si mesmo. Essa é a essência da saúde mental verdadeira.”