Sióstio de Lapa
Pensamentos e Sentimentos
Meu Diário
04/12/2025 00h01
MAL DE ALZHEIMER

            A demência encontrada no Mal de Alzheimer é caracterizada por vertiginosa queda na capacidade mnemônica, principalmente na memória de curto-prazo.



            Fiquei instigado a produzir este texto quando estava a produzir outro e precisei recordar o nome de um personagem muito conhecido na literatura mundial e que essa memória não chegou à minha consciência.



            O leitor deve certamente conhecer e lembrar automaticamente, ao ver a pista que eu tenho e tentar com ela recuperar o nome do personagem que não consigo lembrar. É o companheiro de Sancho Pança, gordinho que segue os passos alucinados do seu senhor, o Cavaleiro da Triste Figura, que luta contra os moinhos de vento e sempre respeitando as regras da cavalaria.



            O nome de sua donzela, Dulcineia. Não tenho certeza se este é realmente o nome dela, mas não chama tanto a atenção quanto esquecer o nome do protagonista da obra de Miguel de Cervantes. Também tive dificuldade de evocar o nome do autor, mas as pistas mentais que consegui elaborar me fizeram recordar.



            Até agora não consegui evocar esse nome, sei que o possuo guardado na mente, mas não consigo lembrar. Só surge na mente o nome de Dom Casmurro, mas sei que não é este que procuro, pois sei que este pertence a um autor brasileiro, Machado de Assis (também sofri uma pequena dificuldade de evocar esse nome do autor).



            Continuo até agora sem o sucesso de evocar o nome do companheiro de Sancho Pança, apesar de ter boas pistas para isso acontecer: é o Cavaleiro da Triste Figura, criado pelo autor espanhol Miguel de Cervantes, que luta contra os moinhos de vento dentro do seu mundo nobre, mas delirante.



            Surge nesse ponto o médico que avalia o paciente.



            Essa condição já classifica o paciente como portador do Mal de Alzheimer?



            Não! Não existe reflexos dessa dificuldade pontual nas suas tarefas habituais. No Mal de Alzheimer existem danos neurais provocados por organelas subcelulares. Esses neurônios afetados podem ser os responsáveis pela dificuldade ou impossibilidade de resgatar a informação que se deseja.



            No meu caso eu sei que estou esquecendo de algo. Procuro evocar outras memórias associadas para servir de isca para eu pescar o nome que quero.



            Sancho Pança... Dom Casmurro? Não.



            Dulcinéia (parece ser o nome correto)... Sonha Pança? Não.



            Cavaleiro da Triste Figura (bigode, longilíneo, lança)... Não vem nenhum nome.



            Moinhos de vento... Não vem nenhum nome.



            Tento visualizar a capa do livro, dois volumes... Dom Casmurro? Não.



            Por que vem tanto o nome Dom Casmurro? Indica a melhor pista?



            Devo procurar por nomes nobres?... Dom, Sultão, Conde... Dom Casmurro? Não.



            Parece que todas as minhas pistas não mostram o caminho correto, e o mais próximo é o Dom Casmurro, mesmo a minha consciência afirmando que esse nome não é o que procuro.



            Aqui surge outra pista interessante para o médico. Na demência pelo Mal de Alzheimer a consciência já não consegue discernir o certo do errado. Eu poderia usar o Dom Casmurro como certo, mas sei que está errado. Por isso não posso me considerar com o Mal de Alzheimer, pois a minha consciência está muito ágil em discernir sobre o certo e o errado. O que identifico são falhas na memória de algo que sei que está guardado, mas que não posso evocar.



            Bem, vou tirar a partir deste momento 3 minutos para forçar a minha mente com todos os recursos mnemônicos que possuo. Para tentar essa forma de resgate vou usar o cronômetro.



            “Cavalo baio... quedas... bigode... lança... Espanha... leitura divertida... tipo esquizoide... falsa realidade... Dom Quixote! Lembrei! 2m16s.



            Dom Quixote de La Mancha, o Cavaleiro da Triste Figura.



            Como consegui? Não sei ao certo. O esforço de unir as pistas acessíveis e procurar novas pistas. Alguma delas que não consigo identificar qual, conseguiu o resgate desejado. Será que foi uma palavra parecida, até mesmo a nível subconsciente que fez o resgate autêntico?



            Sabemos que o lapso da memória acontece cada vez mais frequente com o processo de envelhecimento, com a morte ou degradação natural dos neurônios.



            O que apresentei neste texto pode muito bem ser enquadrado nesse processo de envelhecimento, sem obrigatoriamente levantar preocupações patológicas de início de uma doença tão severa quanto o Mal de Alzheimer.



            Afinal, tenho 73 anos e muitos dos meus neurônios, alguns que faziam parte de circuitos com informações importantes, devem ter ficado inoperantes.



            Agora, resta ficar mais atento aos exercícios mentais, como escrever textos como este diariamente, e escolhas e quantidades nutricionais mais convenientes, para preservar os neurônios sobreviventes da investida do tempo que cada vez fica mais imponente.


Publicado por Sióstio de Lapa
em 04/12/2025 às 00h01