Quando Jesus estava ensinando a André sobre a Solicitude, este aproveitou o momento e perguntou um complemento das suas dúvidas, se a loucura pode ser dita por uma pessoa considerada louca.
- Mestre! Perdoa-me se estou sendo imprudente, mas ficaria contente se pudesses responder-me o que ora recordo. A verdade pode nos ser dita por pessoas ignorantes? Pode servir-se dos lábios de alguém considerado louco? Ou somente os profetas têm a primazia de revelá-la?
- André! Foi providencial a tua intervenção, para que possamos entender os atributos de Deus. A verdade, meu filho, não é patrimônio dos homens nem tampouco dos anjos. A verdade absoluta é Deus em todo seu esplendor divino. Portanto, não pode ser de domínio dos sábios, nem dos santos, nem dos profetas. Ela é força do Criador, que pode e deve se mostrar, pelas vias que achar melhores e mais propícias. Ninguém compra a verdade, nem a própria evolução. A verdade é o conjunto das leis de Deus, que vem a nós pela magnânima vontade do Criador, e pode aparecer à nossa frente por fatos simples ou engenhosos acontecimentos. Quanto aos caminhos que ela poderá percorrer, se puros ou defeituosos, não nos compete o julgamento, porque um homem, pelo simples fato de estar com as faculdades mentais em desordem, não é impedido de acumular sabedoria, a ponto de enfrentar testemunhos que os próprios homens sadios desconhecem. E os animais? É bom que nos lembremos da gata que nunca tivera gatinhos por deficiência orgânica, história muito conhecida de todos. Um certo dia, a sua dona, boa senhora da sociedade, que também não tivera filhos talvez pelos mesmos motivos, recusou-se a adotar duas meninas que chegaram à sua porta, órfãs de pai e mãe, quase nuas e famintas. No dia seguinte a gata sumira. A mulher se afligiu e, preocupada, começa a ficar sem condições de viver sem o animalzinho que tanto amava. Empregados foram postos a procurar a bichana fugitiva. Enfim, um dos escravos da casa achou a gata Men em um capinzal da região, acarinhando três gatinhos que adotara na noite em que saíra para caçar. Os restos da mãe verdadeira denunciaram que fora estraçalhada por algum animal selvagem. A senhora, tendo a notícia do animal de estimação, foi ao local, e vendo o carinho da gata para com os gatinhos, foi levada a meditar, com os olhos fitos em Men, que renunciara a casa rica, cheia de conforto e sem trabalho, recebendo o maior carinho da dona. Os olhos da rica senhora molham a seda de suas vestes. Olha firmemente para Men, e a gata retribuiu o olhar. A mulher fala com bondade: “Men volta para casa, volta para casa, Men!” A gata, em miados suaves, lambendo os gatinhos, ouve o chamado, mas pretende ficar. A senhora insiste: “Men, volta para casa e pode levar seus filhos que também são meus”. O escravo avança devagarinho, recolhendo os órfãos que Men adotara e a gata deixa, entrando junto no mesmo cesto. Dali, a mulher rica, sem sequer ir em casa, foi à procura das duas meninas que haviam batido na sua porta pedindo abrigo e, encontrando-as, passou a servir-lhe de mãe.
Silenciou um pouco, olhou com carinho para André e perguntou:
- Não foi uma verdade do amor, André, que veio de Deus por intermédio de um animal?
André, emocionado, as próprias mãos como se fossem as de Cristo, e disse:
- Graças a Deus, o que pensei há muitos anos, e o que penso agora, sobre o que ouvi de uma história de um velho considerado louco, era uma verdade.
Essa história fez um desdobramento em minha mente, com respeito a sabedoria de Deus. Ele querendo dar uma lição à rica senhora, usou como instrumento a gata que era a companhia dela. Fez com que um animal selvagem estraçalhasse a mãe verdadeira para que os órfãos pudessem conhecer Men.
O que aconteceu com a mãe original, que de repente foi estraçalhada por um animal selvagem, se refere a sabedoria de Deus que opera em qualquer existência da natureza, inclusive em nós, humanos, que podemos sofrer acidentes ou doenças graves sem sabermos qual o real motivo que está por trás desses acontecimentos.