A minha tia, saudosa memória, me chamava na intimidade de “meu santo pecador”. Queria dizer assim da ambiguidade que ela via em mim. Por um lado, uma pessoa boa, que procurava fazer o bem dentro da conceituação da família universal que eu defendo. Por outro lado, ela me via também a distribuir o amor romântico, afetivo, íntimo com as mulheres, da mesma forma que distribuo os meus bens materiais na conceituação da família universal. Isso faz as minhas companheiras que querem um amor exclusivo, dentro dos padrões culturais que foram ensinadas desde crianças, a sofrerem com essa minha liberalidade afetiva, apesar de elas terem o mesmo direito de distribuir também seu amor se assim acharem necessário.
Por isso minha tia me chamava pecador. Agora posso ver pelos olhos da minha tia essa ambiguidade. A minha aparência mostra pelo lado da bondade a fisionomia de Deus, que todos podem ver, e pelo lado do desejo carnal a fisionomia do Demônio, que ninguém pode ver. Tanto uma como outra consideração são muito fortes, de representar Deus ou o Demônio na minha aparência e personalidade.
Por que veio à minha mente essas reflexões? Ao ler o livro de Nikos Kazantzákis, “O Cristo Recrucificado”, no capítulo V, Manólios, o rapaz que tinha sido indicado para representar o Cristo durante um período na comunidade, ia à casa de uma viúva. Ela recebia homens e prestava serviço a eles com seus dotes sensuais, e Manólios queria a salvar dessa luxuriosa perdição. Acontece que ambos, Katerina e Manólios, tinham uma atração mútua. Porém Manólios, querendo sinceramente representar o Cristo, e não podendo fornicar com Katerina, ia à sua casa disposto a conversar com ela a disposição de não a considerar mais como mulher, amante, e sim como uma irmã.
Vejamos como o autor descreve a situação:
Já estava escuro. As aves noturnas, amorosas e famintas, começavam a lançar seus gritos estridentes. As primeiras estrelas, as maiores, penduravam-se no céu.
“Vou esperar que escureça mais ainda, para ninguém me ver na aldeia!”, pensava Manólios, descendo lentamente o caminho. Enquanto andava, dava tratos à bola, escolhendo as palavras que devia dizer e a maneira como dizer, para conseguir que a palavra de Deus penetrasse no coração de Katerina. “Eu bato a porta, ela vem abrir... Vai ficar espantada de me ver, fecha a porta, a gente entra na casa...” Ele já vira o pátio, não tinha medo; vira os cravos, o manjericão, o poço... Mas, e dentro de casa? Manólios ficou cheio de pavor; parou para tomar fôlego. “Dentro de casa, deve haver a cama...”, pensou.
Seu espírito perturbou-se. Não saberia mais o que dizer a viúva, nem mesmo saberia como lhe explicar porque descera da montanha numa hora daquela, em plena noite, para bater à sua porta. E ela, vendo-o enrubescer e perder a cabeça, ia desatar a rir. “Meu pequeno Manólios”, diria, “você veio sem saber ao certo por quê. Será que não sonhou, também? Foi o Maldito que mandou esse sonho, meu Manólios, ou foi a Virgem? Se não foram os dois juntos; isso também acontece. Então você veio, e primeiro vai falar-me de Deus e do paraíso, e depois, sem perceber, pequeno Manólios, sem eu mesma perceber, pobre de mim, estamos os dois abraçados na cama... Que quer? Você é um homem, eu sou uma mulher, Deus fez a gente assim. É culpa nossa se, quando estamos um perto do outro, temos uma vertigem, perdemos a razão e abrimos braços e pernas para nos unirmos?...
Este é o pensamento divino que levava Manólios ao encontro de Katerina; esta é a reflexão demoníaca que Manólios fazia dentro dos seus próprios pensamentos. Isto é o que acontece comigo, vou ao encontro das mulheres com propósitos divinos, mas por dentro existem os instintos animais, diabólicos, de obter o prazer que a carne deseja.
Esta é a ambivalência que minha tia percebia e que considero aqui como real. Mas, continuo a me debater com essa força diabólica que me motiva a procurar as mulheres que os desejos atiçam, porque mEu espírito pode usar essa força para trazer benefícios a quem se aproxima de mim, seguindo a orientação dada pelo Mestre Jesus: “Fazer ao próximo aquilo que desejarias fosse feito a ti”.
Acredito que se eu consigo seguir essa bússola comportamental do Cristo, essa força instintiva pode ser mais uma ferramenta psíquica que mEu espírito pode usar para fazer a vontade do Pai, na construção da Família Universal como base para a realização do Reino de Deus entre nós, aqui na dimensão material.