Sióstio de Lapa
Pensamentos e Sentimentos
Meu Diário
16/01/2026 00h01
ESPÍRITO X BEEMOTE

            Esta luta descrita por Nikos Kazantzákis em seu livro “O Cristo Recrucificado”, quando Manólios se dirige a casa da viúva Katerina, representa bem o que vai no meu campo mental, na minha luta com o Behemoth, quando vou à procura de minhas amigas. Vejamos como é descrito:



            O sangue subiu à cabeça de Manólios. Essas palavras ousadas soavam-lhe nos ouvidos; ouvia distintamente a voz risonha da viúva, que, dizendo isso, aproximava-se dele... sentia já o perfume de mástique e de cravo-da-índia que seu hálito exalava, e do corpete aberto subia o cheiro úmido do corpo impregnado de suor e de almíscar... Manólios foi tomado bruscamente de uma grande fadiga; os joelhos dobraram-se; deixou-se cair sobre um rochedo.



            “Quem falou dentro de mim?”, perguntava-se com espanto. “Quem riu? De quem eram aqueles joelhos que tocaram os meus e fizeram eles se dobrarem?” Tinha de fato ouvido dentro de si a voz e o riso da viúva, e o seu perfume ainda lhe queimava as narinas.



            - Socorro, meu Deus! – Gritou, levantando os olhos para o céu.



            Mas, nesta noite, o céu lhe pareceu muito alto, muito longe, mudo, nem amigo nem inimigo, de uma fria indiferença. Teve medo. As estrelas olhavam para ele e seu coração gelou. Às vezes, em noites de inverno, ele via, próximo ao curral, através dos galhos cobertos de neve, os olhos de um lobo, fixos, amarelos, carregados de ódio; assim lhe pareceram as estrelas, esta noite.



            A imagem da viúva se derramou outra vez por seu espírito, como mel. Na frieza e hostilidade do mundo, era uma grande consolação. Ela não falava mais, nem ria: estremecia, deitada na grande cama, arrulhando como uma pomba, transbordante de gratidão e gemendo ternamente.



            Manólios tapou os ouvidos para não ouvir mais, seu espírito perturbou-se, incharam-lhe as veias do pescoço. Sentiu outra vez o sangue subir furiosamente à cabeça; suas têmporas latejavam como se fossem estourar, tinha as pálpebras pesadas; um formigamento se espalhou por todo o rosto. Dir-se-ia que pelas suas faces, no queixo, na testa, tinham descido milhares de formigas que lhe picavam e devoravam a carne. Um suor frio banhou-lhe o corpo; levou a mão ao rosto, apalpou-o e sobressaltou-se.



            “Meu Deus!”, quis gritar. Mas sua voz gelou-se.



            Apalpou de novo as faces, os lábios, o queixo. O rosto estava todo inchado. A boca, tomada por todos os lados, já não se abria.



            “Que foi que me aconteceu? Que é que eu tenho? Por que estou inchado?”, perguntava-se ele, apalpando desesperadamente o rosto. Estava inchado até o pescoço. Lágrimas começaram a correr-lhe pelas faces.  



            O Behemoth reproduzia na mente de Manólios os sentidos que prenunciavam a aquisição do prazer carnal do qual ele estava ávido. A voz, o cheiro, o toque, o suor de Katerina, enchiam sua mente. Seu espírito em luta, não era a busca do prazer que ele deveria buscar Katerina e sim lhe orientar sobre a melhor forma de conduzir sua vida. Isso fez seu corpo cair no rochedo e refletir sobre o que estava acontecendo. Viu que estava em perigo, pediu ajuda a Deus. Mas o céu se mostrava indiferente, é como se o poder divino o esperasse usar o seu livre arbítrio, pois é onde Deus não pode interferir.



            Nessa luta ferrenha de Manólios com o Beemote, seu Demônio interno, sentia alterações surgir em seu rosto, como sequela desse enfrentamento.



            Esta mesma luta eu enfrento quando estou indo ao encontro de minhas amigas. O Beemote faz surgir em minha mente todos as sensações ligadas aos prazeres da carne, enquanto o mEu espírito luta para colocar em primeiro plano o bem-estar da minha amiga, de qualquer pessoa que eu me relacione. Não surge no meu rosto ou em qualquer parte do meu corpo uma doença tão rápida, quanto aconteceu com Manólios, que sirva de freio para não entrar numa luta onde seria provável a derrota. Talvez no meu corpo esta defesa de alterações na fisiologia para proteger de uma derrota do espírito frente aos encantamentos sensuais das mulheres, seja dada pelo tempo. Hoje vejo meu corpo muito diferente do que fui na juventude, menos atrativo para as mulheres. Portanto, hoje, mesmo que o Beemote esteja ativo dentro da minha mente, os efeitos do tempo sobre mim é quem ajuda ao mEu espírito.


Publicado por Sióstio de Lapa
em 16/01/2026 às 00h01