Seguindo o relato de Manólios sob a pena de Nikos Kazantzákis, no livro “O Cristo Recrucificado”, vamos ver qual o escudo recebido por Manólios para não ser derrotado no enfrentamento sensual que iria fazer com Katerina.
“Tenho que ver! Preciso! Quero saber!”, dizia consigo. Tirou o espelhinho do cinto, abaixou-se para acender uns gravetos secos e se olhou... À luz das chamas que saltitavam, viu o rosto e soltou um grito. Estava coberto de espuma, os olhos eram duas pequenas pérolas negras, o nariz desaparecera entre as faces inchadas como odres e da boca só restava um buraco. Não era mais um rosto humano, era uma máscara de carne repugnante, horrenda. Não era mais a sua carne; uma carne estranha colara-se nela, desaparecera o seu próprio rosto. Pegou de novo o espelho, mas virou logo a cabeça, enojado. Era um homem que estava vendo ou um demônio?
Ergueu-se bruscamente. “Não posso ir lá... Como aparecer para ela neste estado? Como falar com ela? Eu meto medo a mim mesmo. Vou voltar!” Deu meia-volta e começou a subir o caminho correndo, como se o perseguissem.
Só parou à porta do curral; entrou furtivamente na cabana, tremendo à ideia de que, se Nicólios (rapazote que o ajuda no cuidado com as ovelhas) acordasse, ia acender a luz e veria... “Amanhã de manhã, se Deus quiser, talvez eu esteja bom”, pensou. Esta esperança o acalmou um pouco.
Sentou-se na enxerga, fez o sinal-da-cruz, pediu a Deus que tivesse piedade dele: “Meu Deus, prefiro mil vezes morrer a ficar desonrado perante os homens... Por que colou esta carne no meu rosto? Tire-a, meu Deus; jogue-a para longe de mim; faça com que amanhã de manhã meu rosto esteja limpo, humano, como antes!”
Confiou sua esperança a Deus, consolando-se um pouco. Fechou os olhos e viu em sonho uma mulher vestida de preto, que, curvada sobre ele, lhe acariciava o rosto lentamente, ternamente. Devia ser a Virgem. O rosto logo se tornou mais fresco, mais leve. Manólios estendeu o braço, pegou a mão milagrosa para beijá-la; mas um riso rompeu claro e zombeteiro, caiu o véu preto, e Manólios acordou, gritando. Não era a Virgem, era a viúva...
Se de uma hora para outra eu também percebesse o trabalho que o tempo operou em meu rosto, dos 20 aos 73 anos, durante 53 anos em uma hora, eu também ficaria muito assustado, não queria que ninguém me visse assim, talvez não me reconhecessem. Eu não iria em busca de nenhuma de minhas amigas com intenções disfarçadas, de busca do prazer com a ideia de estar formatando o Reino de Deus com a família universal.
Este recurso das Forças do Alto em alterar nossa fisionomia para diminuir a força do apelo sensual feminino na minha estrutura fisiológica e mental masculina, é bastante significativo.
Considero que até hoje o meu Beemote continua efetivo, com todas as suas forças instintivas em busca do prazer sexual. Porém a minha aparência de velho não mais desperta nas mulheres o mesmo apelo que ele tinha de antes. Agora elas me veem na figura de um pai ou de um avô, pouquíssimas como um amante sexual. Isto favorece a intenção do mEu espírito, de fazer a vontade do Pai, construindo a família universal, e respeitando à distância sexual, a evitação que elas demonstram. Isso foi muito evidente com D., que tem a idade de ser minha neta, 26 anos. Respeito a distância sexual que ela demonstra e procuro ajudá-la como se fosse realmente minha neta, mesmo que tenha dentro do nosso relacionamento a abertura tanto minha quanto dela dos afetos sexuais. Posso aproveitar apenas os sonhos, sem sensação de culpa, pois na realidade, não estou objetivamente e prioritariamente em busca de prazeres carnais.
Portanto, agradeço a Deus por ter me dado este escudo fisionômico, ao longo dos anos, para que eu possa com mais facilidade desenvolver a minha missão, de realmente construir a família universal como a vontade de Deus, e não ir em busca de prazeres sexuais como é o desejo do Beemote.