Como foi visto por Nicólios, o ajudante de Manólios, a aparência que agora o seu patrão apresentava, conforme Nikos Kazantzákis.
No canto oposto da peça, Nicólios sobressaltou-se. Apoiou-se num cotovelo e viu o patrão, virado para a parede. Zombou:
- Ei! Manólios, já chegou? Já terminou seus negócios?
Manólios não se voltou. Apalpava o rosto em todos os sentidos. Estava desesperado. Não tinha desinchado, e devia estar cheio de feridas, pois sentia os dedos molhados e das mãos escorria um líquido espesso e pegajoso. “Estou perdido... Estou perdido...”, pensava. “Deve ser lepra!” Deitou-se de barriga para baixo, escondendo o rosto no travesseiro.
Mas Nicólios insistia:
- Divertiu-se muito, patrão? – continuou ele. – Os negócios correram bem?... Está cansado, meu velho; durma.
- Estou perdido... perdido – murmurava Manólios, desesperado; - com certeza é lepra.
Os primeiros raios do sol penetrando pelo postigo clareavam a cabana. Nicólios levantou-se para levar o rebanho ao pasto. No momento de transpor a porta voltou-se:
- Até logo, Manólios!
Manólios, num momento de distração, virou o rosto para responder; Nicólios viu-o, deu um pulo e correu para fora.
- Santa Virgem – exclamou ele -, uma assombração!
Os olhos de Manólios purgavam, o rosto supurava, gretado em todos os sentidos. Fez um esforço para falar; queria tranquilizar Nicólios, mas não pôde pronunciar uma só palavra. Fez um gesto com a mão, para sossegá-lo.
Nicólios apoiara a cabeça ao batente da porta, com o corpo do lado de fora, prestes a fugir. Olhava, com os olhos esbugalhados... Pouco a pouco foi se habituando; o coração serenava.
- Pelo amor do céu, é mesmo você, Manólios? – disse, enfim – Faça o sinal-da-cruz para eu ter certeza.
Manólios fez o sinal-da-cruz; Nicólios encorajou-se então a transpor a porta, mas conservou-se a boa distância do patrão.
- Que foi que aconteceu, meu pobre Manólios? – perguntou, penalizado. – Deve ter sido o Diabo que foi para cima de você e botou essa máscara. Deus me guarde! Com certeza é o Diabo. A mesma coisa aconteceu com meu avô.
Manólios balançou a cabeça, voltou-se de novo para a parede, não querendo apavorar o companheiro, e fez-lhe sinal para que fosse embora.
- Até logo! – repetiu timidamente Nicólios.
E logo se pôs a correr, como se o Diabo lhe fosse no encalço.
Esta representação do rosto de Manólios afetado fisicamente por alguma força, que deformou de maneira monstruosa o rosto do rapaz, quando visto por outra pessoa, traz pavor. A imaginação do escritor, Nikos Kazantzákis, coloca uma realidade interna, energética, instintiva, que todos nós possuímos, e que é representado pelo monstro bíblico Beemote, para o exterior onde todos possam ver. Isso é o que causa medo em Nicólios, quando ele percebe a monstruosidade no rosto de Manólios. Nada tão sério quanto roubar bilhões do tesouro público, deixando os pobres contribuintes a viverem de miséria. Mas um simples desejo sexual, que coloca na face de uma pessoa honesta uma máscara monstruosa, quanto mais os corruptos que passeiam na mordomia ao nosso lado, com seus cargos comprados com as iniquidades que praticam, quantos monstros nos apavorariam, se pudéssemos ver as suas reais carantonhas, além dos seus colarinhos brancos.