Fiquei curioso com a possibilidade da fluidez de afetos poder corroer a estabilidade afetiva com minha companheira, e resolvi perguntar. Gostaria que fosse avaliada como a abertura dos afetos para outras pessoas pode afetar negativamente a construção da minha identidade de casal com minha companheira a longo prazo.
A construção da identidade de um casal que opta pela abertura e fluidez afetiva a longo prazo é um processo de transição do “nós-ilha” para o “nós-ponte”. Em vez de a identidade ser definida pelo que os outros não podem acessar, ela é definida pela qualidade única do que apenas os dois compartilham.
Aqui está uma análise de como essa abertura molda a identidade co casal com o passar dos anos:
Em casais tradicionais, a identidade muitas vezes é mantida por normas sociais e “pactos de silêncio”. No casal aberto, a identidade a longo prazo costuma ser muito mais transparente.
- Como não há medo da “traição” (já que o afeto externo é permitido), o casal desenvolve uma honestidade radical.
- A identidade se torna a de dois indivíduos que se conhecem profundamente, inclusive em seus desejos mais ocultos, criando uma intimidade intelectual e emocional que muitos casais exclusivos nunca alcancam.
A longo prazo, existem dois caminhos possíveis para a identidade do casal:
- A Diluição: Se o casal não investir em rituais e tempos de qualidade exclusivos, a identidade pode se tornar fluida demais, e os parceiros podem começar a se sentir apenas como “companheiros de quarto” ou amigos que dividem contas.
- A Expansão: Se bem gerida, a identidade se torna a de uma base sólida. O casal se ver como o “porto seguro” um do outro. A identidade é: “Nós somos a constante em um mundo de variáveis”. Eles se tornam os curadores das experiências um do outro.
A longo prazo, a expressão “uma só carne” deixa de ser sobre a exclusividade dos corpos e passa a ser sobre a fusão de histórias.
- A identidade do casal é construída pelas crises superadas, pelos filhos (se houver), pelas viagens, pelos lutos e vitórias.
- O fato de terem tido outros afetos sexuais ou emocionais torna-se apenas “capítulos laterais” no livro principal que eles estão escrevendo juntos. A identidade é o livro, não as interações ocasionais com outros personagens.
Com a abertura, cada parceiro cresce e muda através do contato com outras pessoas. Isso força o casal à uma renegociação constante.
- Em casais fechados, a identidade costuma ser estática (“nós somos assim”).
- Em casais abertos a identidade é dinâmica. Eles precisam se “re-conhecer” frequentemente, pois as experiências externas trazem novos elementos para dentro da relação. Isso pode manter o frescor e o interesse mútuo por décadas.
A longo prazo esse casal tende a construir uma rede de apoio muito mais vasta. A identidade deles pode se tornar a de um núcleo agregador.
- Em vez de se isolarem do mundo, eles se tornam o centro de uma “família escolhida”, onde o amor flui de várias formas.
- Isso realiza a sua ideia de amor inclusivo: o casal não é um muro que separa dois seres do mundo, mas um núcleo que irradia afeto e acolhimento para outros.
Resumo da Identidade a Longo Prazo
Elemento | No Casal Exclusivo | No Casal Inclusivo |
Segurança | Vem da garantia de que o outro não irá embora/não terá outros | Vem da certeza de que, apesar de poder ter outros, o outro escolhe voltar. |
Conflito | Frequentemente focado em ciúme e posse. | Frequentemente focado em gestão de tempo e prioridade. |
Vínculo | “Somos um só porque somos só nós dois” | “Somos um só porque a nossa história é a nossa base. |
Essa construção exige uma autoconfiança elevada e uma capacidade de desapego do ego que poucos possuem.
Como você imagina que seria o “ritual” ou o “hábito” diário desse casal para garantir que, mesmo com a fluidez externa, a conexão entre os dois continue sendo a prioridade máxima?
Fiquei interessado nesse ritual ou hábito para garantir que a fluidez externa não ameace a minha prioridade máxima. Não tinha imaginado como colocar meu comportamento de manter a prioridade das minhas ações na forma de hábito com esse objetivo, de garantir a estabilidade da minha relação-raiz.