Tenho uma dívida de gratidão com as prostitutas. Sei que elas não sabem disso, mas sei que eu sei, e, principalmente, o Pai que tudo observa.
Quero fazer algo para ajudar, diminuir minha dívida. Por isso pedi ao Pai para levar minha consciência até aquele momento que o Mestre conversava com Maria de Magdala, e Ele consentiu.
- Senhor, ouvi a vossa palavra consoladora e venho ao vosso encontro!... Tendes a clarividência do Céu e podeis adivinhar como tenho vivido! Sou uma filha do pecado. Todos me condenam. Entretanto, Mestre, observai como tenho sede do verdadeiro amor!... Minha existência, como todos os prazeres, tem sido estéril e amargurada...
As primeiras lágrimas lhe borbulhavam dos olhos, enquanto Jesus a contemplava, com bondade infinita. Ela, porém, continuou:
- Ouvi o vosso amoroso convite ao Evangelho! Desejava ser das vossas ovelhas, mas será que Deus me aceitaria?
O Mestre nazareno fitou-a, enternecido, sondando as profundezas de seu pensamento, e respondeu, bondoso:
- Maria, levanta os olhos para o Céu e regozija-te no caminho, porque escutaste a Boa Nova do Reino e Deus te abençoa as alegrias. Acaso poderias pensar que alguém no mundo estivesse condenado ao pecado eterno? Onde, então, o amor de meu Pai? Nunca viste a primavera dar flores sobre uma casa em ruínas? As ruínas são as criaturas humanas; porém, as flores são as esperanças em Deus. Sobre todas as falências e desventuras próprias do homem e da mulher, as bênçãos paternais de Deus descem e chamam. Sentes hoje esse novo sol a iluminar-te o destino! Caminha agora, sob a sua luz, porque o amor cobre uma multidão de pecados.
A pecadora de Magdala escutava o Mestre, bebendo-lhe as palavras. Homem algum havia falado assim à sua alma incompreendida. Os mais levianos lhe pervertiam as boas inclinações, os aparentemente virtuosos a desprezavam sem piedade. Engolfada em pensamentos confortadores e ouvindo as referências de Jesus ao amor, Maria acentuou, levemente:
- No entanto, Senhor, tenho amado e tenho sede de amor!...
- Sim – redarguiu Jesus -, tua sede é real. O mundo viciou todas as fontes de redenção e é imprescindível compreenda que em suas senhas a virtude tem de marchar por uma porta muito estreita. Geralmente, uma pessoa deseja ser boa como as outras, ou honesta como as demais, esquecendo que o caminho onde todas passam é de fácil acesso e de marcha sem edificações. A virtude no mundo foi transformada na porta larga da conveniência própria. Há os que amam os que lhes pertencem ao círculo pessoal, os que são sinceros com seus amigos, os que defendem seus familiares, os que adoram os deuses do favor. O que verdadeiramente ama, porém, conhece a renúncia suprema a todos os bens do mundo e vive feliz, na sua senda de trabalhos para o difícil acesso às luzes da redenção. O amor sincero não exige satisfações passageiras, que se extinguem no mundo com a primeira ilusão; trabalha sempre, sem amargura e sem ambição, com os júbilos do sacrifício. Só o amor que renuncia sabe caminhar para a vida suprema.
Maria escutava, embevecida. Ansiosa por compreender inteiramente aqueles ensinos novos, interrogou atenciosamente:
- Só o amor pelo sacrifício poderá saciar a sede do coração?
Jesus teve um gesto afirmativo e continuou:
- Somente o sacrifício contém o divino mistério da vida. Viver bem é saber imolar-se. Acreditas que o mundo pudesse manter o equilíbrio próprio tão-só com os caprichos antagônicos e por vezes criminosos dos que se elevam à galera dos triunfadores? Toda luz humana vem do coração experiente e brando dos que foram sacrificados. Um guerreiro coberto de louros ergue os seus gritos de vitória sobre os cadáveres que juncam o chão, mas apenas os que tombaram fazem bastante silêncio, para que se ouça no mundo a mensagem de Deus. O primeiro pode fazer a experiência para um dia, os segundos constroem a estrada definitiva na eternidade. Na tua condição de mulher, já pensaste o que seria o mundo sem as mães exterminadas no silêncio e no sacrifício? Não são elas as cultivadoras do jardim da vida, onde os homens travam a batalha?!... Muitas vezes, o campo enflorescido se cobre de lama e sangue; entretanto, na sua tarefa silenciosa, os corações maternais não desesperam e reedificam o jardim da vida, imitando a Providência Divina, que espalha sobre um cemitério os lírios perfumados de seu amor!...
Maria de Magdala, ouvindo aquelas advertências, começou a chorar, a sentir no íntimo o deserto da mulher sem filhos. Por fim, exclamou:
- Desgraçada de mim, Senhor, que não poderei ser mãe!...
Neste ponto da entrevista lembrei de G., trabalha nessa vida tão dolorosa, para alimentar o seu filho menor que lhe espera em casa. Procura outra oportunidade de trabalho, mas até agora não encontrou. A lição do Mestre foi diretamente para ela, se exterminando no silêncio, no anonimato e no sacrifício, cultivando uma vida no jardim da vida, e que mais tarde essa mesma vida irá travar as batalhas espirituais que persistem até hoje. Talvez seu filho seja cliente de uma dessas mulheres, como hoje procuro pagar minha dívida com a parcela do trabalho delas que contribuiu para a minha educação. Mas vamos voltar à entrevista.
Então, atraindo-a brandamente a si, o Mestre acrescentou:
- E qual das mães será maior aos olhos de Deus? A que se devotou somente aos filhos de sua carne, ou a que se consagrou, pelo espírito, aos filhos das outras mães?
Essa interrogação também me atingiu. Lembro que com a minha primeira esposa decidimos adotar uma criança que precisava de melhor amparo. Hoje, com melhores condições materiais, surge nova oportunidade de acolher criança com necessidade... Por que essa possibilidade não assume a perspectiva de realidade na minha consciência e na consciência de minha atual companheira? Mas, voltemos mais uma vez à entrevista.
Aquela interrogação pareceu despertar Maria de Magdala para meditações mais profundas. Ela sentiu-se amparada por uma energia interior diferente, que até então desconhecera. A palavra de Jesus lhe honrava o espírito; convidava-a a ser mãe de seus irmãos em humanidade, aquinhoando-os com os bens com os bens supremos das mais elevadas virtudes da vida. Experimentando radiosa felicidade em seu mundo íntimo, contemplou o Messias com seus olhos nevoados de lágrimas e, no êxtase de sua imensa alegria, murmurou comovidamente:
- Senhor, doravante renunciarei a todos os prazeres transitórios do mundo, para adquirir o amor filial que me ensinastes!... Acolherei como filhas as minhas irmãs no sofrimento, procurarei os infortunados para aliviar-lhes as feridas do coração, estarei com os aleijados e leprosos...
Nesse instante, Simão Pedro passou pelo aposento, demandando o interior, e a observou com certa estranheza. A convertida de Magdala lhe sentiu o olhar glacial, quase denotando desprezo, e, já receosa de um dia perder a convivência do Mestre, perguntou com interesse:
- Senhor, quando partirdes deste mundo, como ficaremos?
Jesus compreendeu o motivo e o alcance de sua palavra e esclareceu:
- Certamente que partirei, mas estaremos eternamente reunidos em espírito. Quanto ao futuro, com o infinito de suas perspectivas, é necessário que cada um tome a sua cruz, em busca da porta estreita da redenção, colocando acima de tudo a fidelidade a Deus e, em segundo lugar, a perfeita confiança em si mesmo.
Observando que Maria, ainda opressa pelo olhar estranho de Simão Pedro, se preparava a regressar, o Mestre lhe sorriu com bondade e disse:
- Vai, Maria!... Sacrifica-te e ama sempre. Longo é o caminho, difícil a jornada, estreita a porta, mas a fé remove os obstáculos... Nada temas: é preciso crer, somente!
Esta última lição do Mestre também se aplica diretamente a mim. Também devo pegar minha cruz e permanecer no caminho estreito da redenção, sabendo que a jornada é difícil, mas que no final estarei mais sintonizado com a essência do Pai.