Sióstio de Lapa
Pensamentos e Sentimentos
Meu Diário
19/06/2026 00h01
MULHERES DESVENTURADAS

            Aproveito neste texto para dar o prosseguimento a resposta que Jesus está dando a Pedro sobre as prostitutas, mulheres desventuradas, iniciada no texto do dia anterior.



            - Por isso, as mulheres mais desventuradas ainda possuem no coração o gérmen divino, para a redenção da humanidade inteira. Seu sentimento de ternura e humildade será, em todos os tempos, o grande roteiro para a iluminação do mundo, porque, sem o retorno do sentimento, todas as obras da razão humana podem parecer como um castelo de falsos esplendores.



            Simão Pedro ouvia o Mestre, tomado de profundo enlevo e santificado fervor admirativo.



            - Tendes razão, Senhor! – murmurou, entre humilde e satisfeito.



            - Sim, Pedro, temos razão – replicou Jesus, com bondade. – E será ainda à mulher que buscaremos confiar a missão mais sublime na construção evangélica dentro dos corações, no supremo esforço de iluminar o mundo.



            O apóstolo do Tiberíades ouvira as derradeiras palavras do Divino Mestre, tomado de surpresa. Conservou-se, no entanto, em silêncio, ante o sorriso doce do Messias.



            Muito distante, o último beijo do sol punha um reflexo dourado no leque móvel das águas que as correntes claras do Jordão enriqueciam. Simão Pedro, fatigado do labor diário, preparou-se para descansar, com sua alma clareada pelas novas revelações da palavra do Senhor, as quais, cheias de luz e esperança divinas, dissipavam as obscuridades da lei de Moisés.



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            Dois dias eram passados sobre o doloroso drama do Calvário, em cuja cruz do inominável martírio se sacrificar o Mestre, pelo bem de todos os homens. Penosa situação de dúvida reinava dentro da pequena comunidade dos discípulos. Quase todos haviam vacilado na hora extrema. O raciocínio frágil do homem lutava por compreender a finalidade daquele sacrifício. Não era Jesus o poderoso Filho de Deus que consolara os tristes, ressuscitara mortos, sarava enfermos de doenças incuráveis? Por que não conjurara a traição de Judas com as suas forças sobrenaturais? Por que se humilhara assim, sangrando de dor, nas ruas de Jerusalém, submetendo-se ao ridículo e à zombaria? Então, o emissário do Pai Celestial deveria ser sacrificado entre dois ladrões?!



            Enquanto essas questões eram examinadas, de boca em boca, a lembrança do Messias ficava relegada a plano inferior, olvidada a sua exemplificação e a grandeza dos seus ensinamentos. O barco da fé soçobrara inteiramente, porque ali estavam as lágrimas do coração materno, trespassado de amarguras.



            O Messias redivivo, porém, observava a incompreensão dos seus discípulos, como o pastor que observa o seu rebanho desarvorado. Desejava fazer ouvida a sua palavra divina, dentro dos corações atormentados; mas, só a fé ardente e o ardente amor conseguem vencer os abismos de sombra entre a Terra e o Céu. E todos os companheiros se deixavam abater pelas ideias negativas.



            Foi então, quando, na manhã do terceiro dia, a ex-pecadora de Magdala se acercou do sepulcro com perfumes e flores. Queria, ainda uma vez, aromatizar aquelas mãos inertes e frias; queria, uma vez mais, contemplar o Mestre adorado, para cobri-lo com o pranto do seu amor purificado e ardoroso. No seu coração estava aquela fé radiosa e pura que o Senhor lhe ensinara e, sobretudo, aquela dedicação divina, com que pudera renunciar a todas as paixões que a seduziam no mundo. Maria Madalena ia ao túmulo com amor e só o amor pode realizar os milagres supremos.



            Estupefata, por não encontrar o corpo, já se retirava entristecida, para dar ciência do que verificara aos companheiros, quando uma voz carinhosa e meiga exclamou brandamente aos seus ouvidos:



            - Maria!...



            Ela se supôs admoestada pelo jardineiro; mas, em breves instantes reconhecia a voz inesquecível do Mestre e lhe contemplava o inolvidável sorriso. Quis atirar-se-lhe aos pés, beijar-lhe as mãos num suave transporte de afetos, como faziam nas pregações do Tiberíades, porém, com um gesto de soberana ternura, Jesus a afastou, esclarecendo:



            - Não me toques, pois ainda não fui ao meu Pai que está nos céus!...



            Instintivamente, Madalena se ajoelhou e recebeu o olhar do Mestre, num transbordamento de lágrimas de inexcedível ventura. Era a promessa de Jesus que se cumpria. A realidade da ressurreição era a essência divina, que daria eternidade ao Cristianismo.



            A mensagem da alegria ressoou, então, na comunidade inteira. Jesus ressuscitara! O Evangelho era a verdade imutável. Em todos os corações pairava uma divina embriagues de luz e júbilos celestiais. Levantava-se a fé, renovava-se o amor, morrera a dúvida e reerguer-se o ânimo em todos os espíritos. Na amplitude da vibração amorosa, outros olhos puderam vê-lo e outros ouvidos lhe escutaram a voz dulçorosa e persuasiva, como nos dias gloriosos de Jerusalém ou de Cafarnaum.



Desde essa hora, a família cristã se movimentou no mundo, para nunca mais esquecer o exemplo do Messias.



A luz da ressurreição através da fé ardente e do ardente amor de Maria Madalena, havia banhado de claridade imensa a estrada cristã, para onde todos os séculos terrestres.



É por isso que todos os historiadores das origens do cristianismo param a pena, assombrados ante a fé profunda dos primeiros discípulos que se dispersaram pelo deserto das grandes cidades para a pregação da Boa Nova, e, observando a confiança serena de todos os mártires que se têm sacrificado na esteira infinita do Tempo pela ideia de Jesus, perguntam espantados, como Ernest Renan (Historiador e filósofo francês), em uma de suas obras:



- Onde está o sábio da Terra que já deu ao mundo tanta alegria quanto a carinhosa Maria de Magdala?


Publicado por Sióstio de Lapa
em 19/06/2026 às 00h01