Este texto traz a reflexão sobre o meu encontro com Dalete, que logo depois vim saber que é um nome bíblico, que significa Porta, e que foi o estímulo para que eu desse o primeiro passo para a construção da minha Árvore do Amor Inclusivo. Vejamos as implicações...
Quando Jesus fala da Porta Estreita, Ele não estava falando sobre quantas pessoas cabem, estava falando de algo completamente diferente. É algo mais próximo de pressão, a porta não é estreita porque a graça é escassa, é estreita por causa do que o caminho faz com você ao atravessá-la.
O Mestre orientava para entrar pela Porta Estreita, pois larga é a porta e espaçoso o caminho que leva a perdição, e muitos são os que entram por ela. Como é estreita a porta e apertado o caminho que leva a vida, poucos são os que entram por ela.
Jesus não está interessado em nos dar uma estimativa da população do céu, está interessado em que tipo de caminho estamos trilhando. A palavra traduzida como estreita é a palavra grega estenose, que significa Estreito. É o tipo de estreiteza que se sente quando um corredor se fecha, como quando um desfiladeiro se estreita, quando não há espaço de nenhum dos lados, confinado, constrito, comprimido.
É a palavra que dá origem ao termo médico estenose, estreitamento perigoso de um vaso sanguíneo ou de uma válvula, o tipo de aperto que o corpo não consegue suportar.
Há um momento no antigo testamento grego que mostra exatamente o que essa palavra significa. No livro de Números, o profeta Balaão está cavalgando seu jumento por uma estrada e um anjo do senhor bloqueia o caminho. O texto diz que o anjo ficou de pé num lugar estreito, onde não havia como virar nem para a direita nem para a esquerda (Números 22:26).
Um lugar estreito não é apenas um lugar pequeno, é um lugar sem espaço para se desviar. Você não pode vagar para a esquerda, não pode se afastar para a direita, as paredes o mantêm numa única linha. Isso é estreito, não se trata de exclusão, trata se de restrição. O caminho Estreito é o caminho que não permite que você se espalhe.
Observe que na história de Balaão, o lugar Estreito, onde o homem finalmente enxerga o anjo, lhe faltava a constrição. Não é um castigo, é o lugar onde ele é finalmente forçado a prestar atenção, porque não há outro lugar para olhar.
A palavra pode significar estreito, apertado ou constrangido, assim como angústia, problema, aflição e sofrimento. A raiz por trás disso significa amarrar, sitiar, pressionar por todos os lados. A palavra para o espaço físico apertado e a palavra para angústia emocional são a mesma coisa. Está num lugar Estreito é estar em angústia, ser espremido pela vida.
Quando Davi clama nos Salmos que está em apuros, observamos a imagem por trás da palavra. Um homem encurralado num desfiladeiro, paredes se fechando ao seu redor, sem espaço para virar à esquerda ou à direita, com inimigo à sua frente.
Estreito e difícil não são duas ideias distintas, são um só o lugar. Estreito é um lugar difícil, a estrada apertada, a estrada problemática. Isso está intrínseco ao vocabulário evangélico e o contraste que Jesus estabelece, torna o ponto ainda mais claro. O portão largo recebe o nome próprio e a estrada ampla outro. A estrada para destruição é chamada de espaçosa, ampla, com muito espaço para se espalhar, onde há espaço para tudo. Nessa estrada há espaço para carroça, para carga, para toda a caravana e todas as versões de si mesmo que a pessoa nunca quis abandonar.
É esse exatamente o problema, uma estrada com espaço infinito para vagar, uma estrada que não exige nada da pessoa, não corrige nada. A pessoa pode perambular para onde quiser, com a inclinação dos seus próprios desejos. A estrada espaçosa dar sensação de Liberdade. Na verdade, é apenas a ausência de algo que o prenda a uma direção. Isso significa que, quando Jesus está descrevendo uma entrada estreita, está descrevendo o modo de vida que pressiona, que prende a pessoa a uma linha que não lhe dá espaço para carregar tudo o que se quer.
Jesus não deixa a porta como um objeto, Ele o transforma em pessoa. Mais tarde Ele diz isso claramente: eu sou a porta, se alguém entrar por mim será salvo, entrará, sairá e encontrará pastagem (João 10:9); e então, ainda mais diretamente: eu sou o caminho, a verdade e a vida, ninguém vem ao Pai se não for por mim (João 14:6).
Esta é a porta estreita, porque é uma só. Não porque a graça seja escassa, mas porque há uma única porta e a porta tem um nome, e o nome é Jesus. O caminho da verdade é Estreito. Não é uma falta de generosidade, é simplesmente a verdade. Há uma ponte sobre o desfiladeiro, e atravessá-la não é exclusão, é resgate.
Há algo de terno escondido nessa imagem da porta. No deserto da Judéia, um pastor costumava construir um cercado rústico de pedras para abrigar o rebanho à noite, com uma única abertura na parede. O próprio pastor se deitava sobre essa abertura, seu próprio corpo se tornava a porta, nada entrava no cercado e nenhuma delas escapava, exceto por meio dele. Então, quando Jesus diz eu sou a porta, Ele não está descrevendo uma barreira que impede a entrada de pessoas, está descrevendo um pastor que se deitou na única abertura, de modo que o caminho para a segurança passa pelo seu próprio corpo. A porta estreita tem a forma de uma pessoa deitada na passagem.
Agora, observemos o que Jesus diz a seguir. Ele adverte que chegará o dia em que o dono da casa se levantará e fechará a porta. As pessoas do lado de fora começam a bater, o Senhor abre a porta. Elas dizem, listando suas credenciais: jantamos com o Senhor, o Senhor deu aulas em nossas ruas. A questão não é que a porta seja pequena, a questão é que a porta está aberta agora e não ficará aberta para sempre. O convite tem um prazo, isso não é maldade, é honestidade sobre o fato de que portas se fecham, que decisões não podem ser adiadas, indefinidamente. Que o depois é apenas uma estrada larga, disfarçada. Quantos serão salvos? Apenas alguns poucos.
Jesus diz que virão pessoas do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul e se sentarão à mesa no Reino de Deus (Lucas 13:29). De todas as direções vem multidões de todos os cantos da Terra, afluindo para se sentar à mesa no banquete. O convite é lançado ao mundo inteiro, esse é o paradoxo. As línguas originais preservam uma única porta, mas todos são convidados a passar por ela. É única, mas a recepção atrás dela é calorosa e espaçosa.
O Mestre suportou verdadeira pressão no Jardim do Getsêmani, onde orou em agonia, prevendo o sofrimento na Cruz, onde todo o peso dos pecados do mundo desabaria sobre Ele. O caminho Estreito de sofrimento, que ninguém mais conseguia percorrer, Ele percorreu até o fim, e abriu a porta do outro lado de modo que o portão pelo qual jamais conseguiríamos forçar a passagem, permanece aberta.
Se estou seguindo a vontade de Deus, e sinto que é difícil, opressivo, custoso como um desfiladeiro, sem espaço para me desviar, eu estou exatamente onde deveria estar. A dificuldade não é prova de que me perdi, a Porta Estreita sempre foi descrita como aquela que leva à estrada comprimida. Dificuldade na estrada certa, é evidência de que estou no Caminho da Verdade. Na estrada, às vezes a dificuldade é o sinal de que eu ainda estou no caminho e não fora dele. Existe a tendência de presumir que, se algo vem de Deus deve ser fácil e que o atrito significa que cometemos um erro. O vocabulário dessa passagem evangélica corrige silenciosamente essa suposição. O bom caminho nunca foi anunciado como mais fácil. Vale a pena ser honesto também sobre o outro caminho, porque o caminho largo é o padrão, é o caminho que se acaba por decidir, por se deixar levar, por fazer o que é fácil, o que todo mundo faz, e o que não exige nada de ninguém.
É por isso que Jesus precisou ordenar as pessoas que entrassem pela porta estreita. Ninguém precisa de ordem para entrar na estrada larga, a pessoa já está nela. Não é que a pessoa seja obviamente má. É que ela quer apenas viver, com simplicidade, com prazer, com todos os penduricalhos que o Ego exige.
Então, a questão é que nós estamos tentando carregar uma bagagem que a Porta Estreita não permite. Podemos estar exaustos, não porque a estrada seja difícil demais, mas porque estamos arrastando uma caravana carregada de trecos materiais por essa trilha. O ressentimento que fica, de não querermos largar a vida dupla que estamos tentando manter, a imagem de nós mesmos que recusamos abandonar, a queixa que ensaiamos tantas vezes de mudar o caminho que parece fazer parte de quem somos.
A Porta Estreita não está pedindo que você seja mais forte para carregar tudo para dentro, está pedindo que coloquemos tudo no chão para poder passar. A pressão que iremos sentir pode ser uma forma das paredes dizerem o que deve ser abandonado, que deve ser expulso o que está nos esmagando.
Nós não precisamos abrir caminho até Deus com pura força de vontade, agarrando-nos a uma estrada difícil demais para qualquer ser humano. Esse nunca foi o acordo, o esforço que Jesus exige não é o esforço de alguém tentando merecer a entrada, é o esforço de alguém que já encontrou a única porta, que se recusa a ser impedido de entrar. Alguém que não vai voltar para o caminho largo, alguém que continua caminhando sob pressão, porque sabe o que está do outro lado.
Esforcemo-nos para chegar à porta, sim, mas a porta é uma pessoa que já percorreu o trecho mais difícil à nossa frente, e que está do outro lado, segurando aberta, chamando pessoas de todas as direções.
Estreito significa apertado, significa um caminho que te prende a uma só linha e que não permite que você carregue toda a sua vida antiga. Significa uma estrada com um custo real, que leva uma vida real, por uma única porta real.
O espaço largo e fácil sempre esteve disponível, não exige nada e não leva a nenhum lugar bom. O outro caminho é apertado, pressiona e custa as coisas que você nunca deveria ter guardado, mas leva para casa.
A Porta que parece Estreita demais para passar, acaba sendo uma Pessoa de braços abertos, chamando de todas as direções. A pessoa que não anda no conselho dos ímpios, que não se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores, antes o seu prazer deve está na lei do senhor e na sua lei medita de dia e de noite. Ela é como árvore plantada junto à corrente de águas que no devido tempo dá o seu fruto, e cuja folhagem não murcha, e tudo quanto ele faz será bem sucedido.
Com estas reflexões posso imaginar se estou fazendo a vontade do Pai no meu relacionamento com Dalete. Se ela significa a Porta que Deus colocou no meu caminho para me testar, vamos ver como estou me saindo nesse teste. Dalete, a Porta, não está definida como Estreita ou Larga. Quem vai definir isso é o meu comportamento. O principal teste é quando deito na mesma cama, ao seu lado, sentindo o seu corpo semidespido perto de mim. Aqui está a hora do teste. Meus instintos masculinos, a cabeça da luxúria do Behemoth está ativa, enche minha mente de desejos, de usar esse corpo que implicitamente está à minha disposição. Ela nessa perspectiva é a Porta que dará acesso ao caminho Largo, do prazer, da posse. Mas, ao mesmo tempo chega na mente a consciência do mEu espírito, de fazer a vontade do Pai, de fazer ao próximo aquilo que eu desejaria fosse feito a mim se eu estivesse no lugar dele. Então, me coloco no lugar de Dalete, a vejo impassível ao meu lado, submissa, mas não expressa nenhum movimento que indique querer o ato sexual que o Behemoth tanto deseja, mesmo que não haja intensão de penetração. Então percebo que se eu estivesse no lugar dela não iria querer tal comportamento sexual, portanto, devo conter todos os ímpetos instintivos. Mantenho o meu corpo impassível junto ao corpo dela, sentindo que entrei pela Porta dela no caminho estreito, que não posso me desviar nem para a esquerda, nem para a direita. Deverei ficar sob essa pressão das paredes do caminho Estreito sobre o meu comportamento. O dia amanhece e estou firme no caminho Estreito, não saltei para o caminho Largo.
Acredito que Pai está satisfeito comigo. Ele preparou essa pessoa que recebeu um nome tão apropriado para iniciar a minha missão, que colocou ao meu lado como um batismo de iniciação. Agora posso colocar outros diversos ramos na minha Árvore do Amor Inclusivo, pois estou com um grande crédito frente ao Pai, com o meu relacionamento fraterno junto a Dalete, a Porta que pode se abrir tanto para o caminho Estreito quanto para o caminho Largo, assumindo diversas identidades, de amiga, amante, filha ou até mesmo neta.