Assistindo pela segunda vez o filme “Clara e Francisco” tem uma cena marcante, onde Francisco declara em assembleia, frente a toda a cidade de Assis, que está trocando o seu pai biológico pelo Pai divino que está nos céus. Vejamos, desde o início, quando sua mãe conversa com ele que estava acorrentado pelo pai, percebe a forte intenção evangélica em sua mente, o retira das correntes e pede para procurar o Bispo da cidade...
- Mãe, a senhora não deve ter medo. Ele não me fez nenhum mal. Fui eu quem o magoei. E a magoei também.
- Francisco, o que está acontecendo com você? Está doente? Será que é por ficar com todos aqueles leprosos?
- Mãe, olhe para mim. Somos todos leprosos. Mesmo se escondermos as nossas chagas sob as roupas mais bonitas, e mentirmos uns para os outros para nos convencermos de que somos sãos e felizes. Ainda assim esquecemos a verdadeira razão pela qual ser feliz, que Deus ama todos nós, apesar das chagas que nós escondemos. Deus nos ama tanto, mãe, que se tornou um de nós e que se fez pregar na cruz nú, mãe, mostrando todas as suas chagas.
A mãe, impactada por suas palavras, pega a chave das correntes e o liberta e orienta, após perceber a preocupação de Francisco com o pai.
- O que ele dirá?
- Não se preocupe. Vá procurar o Bispo Guido. É uma pessoa sábia. Saberá protege-lo.
- Obrigado.
Francisco se afasta e a cena volta na presença do Bispo Guido, que pergunta...
- E como lhe veio essa ideia estranha de dar o dinheiro ao mestre Pedro para reconstruir a Igreja de São Damião?
- Porque está caindo aos pedaços. E porque o crucifixo me pediu.
- Ah! Então Deus pediu que roubasse seu pai. O que está pensando? Você pode me enganar? Dizem que passa muito do seu tempo junto aos leprosos. Por que?
- Porque ninguém me causava mais repulsa do que eles.
- Então faremos assim. Irei a São Damião recuperar o dinheiro com o mestre Pedro, e depois pedirei ao seu pai que participe de uma assembleia pública na qual você irá restituir tudo que pegou dele.
Francisco se ajoelha em obediência e a cena vai para o dia da assembleia, com todos os habitantes da cidade presentes, inclusive Clara. O Bispo Guido ordena:
- Tragam Francisco aqui.
Francisco chega, humilde, com o dinheiro já nas suas mãos e encontra o pai no centro da assembleia. Clara se mostra muito curiosa com tudo que está acontecendo, principalmente com o comportamento de Francisco. O Bispo Guido toma a palavra.
- Pedro Bernardone, convocamos o senhor aqui, hoje, nesta assembleia, para que esclareça na frente de todos o problema que surgiu entre o senhor e o seu filho.
- Esclarecer, senhor? Não há nada para esclarecer. O meu filho é um ingrato. Não serve para nada. A única coisa que ele sabe fazer é explorar o seu pai. É isso. Ele quer sair à noite, juntar-se aos seus amigos para se divertir até o dia amanhecer. E o pai, paga. Ele precisa de armas para se gabar na frente de todos em batalha. E o pai, paga. É preciso tirar ele da cadeia. E o pai, paga. E o que ele faz? Simplesmente ele decide ir à cruzada, mas depois ele volta, volta para casa. E aí começa a andar com um bando de leprosos. Tanto que agora as pessoas têm medo de comprar os meus tecidos, estão aterrorizadas. E por último, ele esvazia meu depósito, vende tudo e dá o dinheiro que recebeu para a reconstrução de uma igreja em ruínas, na qual ninguém entra há anos. Ninguém! Eis a situação, senhor. Ficou claro agora?
- E você, Francisco, o que é que tem a dizer para se desculpar?
- Eu digo que sou um filho ingrato. O filho ingrato de um pai, que me amou, como nenhum outro pai jamais amou o próprio filho, que teve grandes sonhos para mim, sonhos como nenhum outro pai teve. Mas tem um outro pai também que já me amava e muito antes que Pedro Bernardoni, o Pai que todos nós temos no céu, o nosso Pai, diante do qual todos os pais da Terra são apenas filhos balbuciantes. Pedro Bernardoni queria que eu fosse um grande cavaleiro, mas o nosso Pai do céu, Ele quer que eu seja o último entre os últimos. Eu te peço perdão, pai, e te devolvo todo o dinheiro que eu peguei. E eu renuncio a todo o meu direito sobre o seu nome e sobre os seus bens. Até o dia de hoje eu chamei Pedro Bernardoni de meu pai, mas daqui para a frente, o meu único pai será o Pai nosso que está no céu... que está no céu!
Ato contínuo, Francisco tira todas as suas roupas na praça pública sob os olhares atônitos de todos. Pica, a mãe, e Clara, demonstram olhares de admiração e nao de acusação. O Bispo Guido corre e o cobre com a sua própria capa e o abraça fraternalmente.
Este é o epicentro da transformação na vida de Francisco. Naquela época e até hoje, foram atos de franca loucura. Se alguém faz tal coisa agora, com certeza a família o levará a um hospital psiquiátrico solicitando a sua internação involuntária, e o médico plantonista não verá argumentos para recusar. Hoje também concordo que eu tenho um comportamento bem distante das normas culturais, mas não chega nem a metade do que Francisco de Assis fez, na obediência ao Pai.