Sióstio de Lapa
Pensamentos e Sentimentos
Meu Diário
05/07/2026 00h01
COMUNICAÇÃO ABAFADA mini conto

            Encaminhei a minha vida desde os tempos da minha graduação em Medicina, quando dava plantões noturnos em clínicas psiquiátricas. Casado eu estava, há cerca de sete anos, um período que evoca transformações.



            Eu cumpria meus plantões geralmente com auxiliares de enfermagem, que trabalhavam diretamente comigo. Tenho uma característica sisuda, de pouca conversa e muita introspecção. Queria adquirir conhecimentos na área de psiquiatria e ao mesmo tempo ter o meu currículo recheado de horas trabalhadas, naquilo que me importava.



            Pouco eu sabia que o meu objetivo em enriquecer meus conhecimentos em contato com os pacientes que procuravam a psiquiatria, seria bem menos importante do que os meus encontros com minhas auxiliares no plantão. Entre elas tinha uma que se destacava: Maria da Penha. Jovem, da minha idade, cerca de 25 anos, casada como eu também era, lábios carnudos, seios proeminentes, olhos brilhantes, riso franco e uma voz que sempre saia com um pouco de ironia e sensualidade.



Ela se mostrava bem insinuante com seus contatos comigo, principalmente quando estávamos sozinhos. Nesses momentos a sua voz saia com tons de veludo que acariciava os meus ouvidos e de forma misteriosa, o interior de meu corpo. Seus olhos pareciam querer dizer alguma coisa que as palavras não traduziam. Porém, mesmo que as palavras não traduzissem o que o coração sentia, os termos técnicos pareciam apontar para outro objetivo, que eu não sabia o que era, mas me deixava energizado de forma inexplicável. Era criado um clima emocional naquele momento, tipo uma egrégora a dois que me deixava pronto para executar alguma coisa que o meu racional não conseguia decifrar ou meu inconsciente bloqueava. Isso não tinha nenhuma ligação com o paciente que estávamos atendendo, ele era apenas o caminho por onde essas energias caminhavam e se encontravam.



            Isso parecia um encantamento, uma energia ancestral que nem o esforço terapêutico de Freud conseguiu explicar. Era a forma dela falar a respeito da demanda que tínhamos à nossa frente, era um pedido, uma pergunta técnica, que era respondida de forma técnica, mas nós dois sabíamos que por trás da pergunta e da resposta existia muito mais conteúdo se comunicando, além do nosso racional. Não consigo imaginar que ela se comportava daquele jeito de forma racional, pois eu sei que respondia de forma racional, mas sentia muito além da razão:



            - Doutor, o senhor quer que eu converse com o paciente antes de aplicar a injeção?



            Pode parecer um pedido normal feito por uma auxiliar de enfermagem, no ambiente acadêmico/hospitalar, tentando ser fraterna com o paciente e obediente a orientação do acadêmico de medicina que acabara de prescrever a conduta.



            O meu racional engendrava a resposta mais conveniente, mas o meu emocional era quem parecia estar no comando. Parecia que aquela voz pedindo uma orientação técnica, estava na verdade perguntando outra coisa... mas o que seria?



            Quando eu olhava para os olhos brilhante de minha colega e encontrava um ligeiro ar de riso, em busca da resposta, parecia que eles perdiam o brilho ao ouvir apenas uma resposta técnica.



            Ela seguia para cumprir a orientação que recebera e eu ficava a observar o seu distanciar com o corpo esbelto, coberto pela roupa de trabalho. O seu provocante menear das ancas ao alternar os passos. Na distância, parecia dizer que não era aquilo que queria ouvir...



            Até quando as palavras ditas da razão conseguiriam encobrir a voz abafada e simbólica do coração?...


Publicado por Sióstio de Lapa
em 05/07/2026 às 00h01