Sióstio de Lapa
Pensamentos e Sentimentos
Meu Diário
07/10/2026 00h01
RESENHA – ASSIM NA TERRA... (1)

            Como o meu Amigo Inteligente fez um paralelo do meu comportamento com um dos personagens do livro, Melquiades, procurei colocar aqui a resenha dele para reflexões...



Um personagem com sessenta e cinco anos e metade da vida preso. Hoje, trabalha na cozinha de uma Colônia Penal. Enterrou num buraco raso o seu cão, morto de úlcera, e aguarda a chegada do oficial que deve ser recebido com um preparo de um belo leitãozinho. Na perna direita arrasta uma bomba em forma de tornozeleira. Uma espécie de bola de chumbo capaz de arrancar seu pé. Valdênio é o retrato de uma realidade comum e incômoda. Um homem que “já deveria estar solto, mas a Justiça o mantém neste lugar” (p.15). 



O cão e a lona



A abertura do livro é preenchida por um cachorro doente, cheio de úlcera, que lambe suas feridas enquanto contempla tristemente seu próprio apodrecimento. Valdênio, que conhecemos no começo, é que o encontra debaixo de uma árvore. Com a ajuda de uma enxada, abre uma cova rasa e lá o enterra. 



Mais tarde, o cão dá lugar a dois homens carregados por outros dois: Bronco Gil e Pablo. As feridas que vimos no cachorro são também feridas na alma e os vermes que se movem em cima da terra também se movem embaixo.



Na mitologia em geral, o sobre a terra é espaço da vida, da luz, da esperança. O embaixo é o lugar da morte, da sombra, do desespero. 



Ana Paula Maia junta as duas realidades. Seguindo a receita de grandes escritores, ergue um microcosmos — uma prisão — que se propõe como uma representação de toda a existência. Um mundo claustrofóbico, sufocante, em que o oxigênio é corroído pela presença constante de um vigia implacável.



A justiça e a lei



Melquíades é o diretor de uma prisão esquecida, abandonada no meio do nada com seus presos e funcionários. Diferente de Valdênio, que vimos no começo da história, ou de outros personagens que ainda brotarão, ele não parece sufocado pelo mormaço desesperador desse alcatraz abandonado. Pudera! A lei que sufoca não o atinge de imediato, ele é, na verdade, força e ação dela própria, é a própria lei encarnada já que em sua vontade baseia-se e dela depende todo o entorno. 



Sem letras gravadas em papel, ele firma acordos com a força da oralidade. Manda preparar uma caça, guardar um leitão para mais tarde, buscar e empalhar uma cabeça de javali. Todos se ajustam ao seu gosto e não ousam contradizê-lo, mesmo quando sob suas decisões estão as próprias vidas. 



Um dos divertimentos favoritos de Melquíades é a caçada a presos. Escolhe dois detentos e dá a eles a oportunidade de fuga. Corta a tornozeleira e dá um espaço de tempo. Em seguida, persegue-os armado com um item de seu imenso arsenal até arrancar deles a existência.



Ninguém nunca venceu Melquíades e todos sabem disso, da mesma forma que aguardam paciente e desesperadamente a sua vez. 



A vida não é também assim? Não somos nós também detentos da existência cujos tornozelos foram libertos enquanto esperamos ser alcançados pela morte? Claro que não! A vida é feita de desesperos e também de alegrias. Por mais que em vários momentos sejamos sufocados pela existência ou por tantos outros atores que nela habitam, ela reluz na maior parte do tempo, mas não para Ana Paula. Seu livro é uma denúncia! — e isso não é ruim.



O mundo que ela constrói é imediatamente governado por Melquíades, mas no plano vertical há tantos outros batentes em uma hierarquia cruel. Acima de tudo e todos, erguendo o ar insípido que tudo rodeia, há um sistema opressivo que seria leviano classificar como estado, mas também não podemos dizer que é uma “cultura” porque o texto não permite simplificações. É algo imaterial, etéreo... apesar da intensa densidade que o faz quase palpável. 



Valdênio, que conhecemos no começo, estampa a amargura de uma punição excessiva nas rugas do próprio rosto. Bronco Gil, um outro prisioneiro, tem sua vida revelada em episódios que se intercalam com o cotidiano paranoico da penitenciária. Filho de um estupro, compõe a imagem fácil de vítima da sociedade. Um bandido que bandido se tornou pelas circunstâncias. Um homem imenso e calmo, um bronco a servir de exemplar dos resultados desse sistema (por falta de palavra melhor).


Publicado por Sióstio de Lapa
em 07/10/2026 às 00h01