Sióstio de Lapa
Pensamentos e Sentimentos
Meu Diário
10/10/2026 00h01
RESENHA – ASSIM NA TERRA... (3)

Como o meu Amigo Inteligente fez um paralelo do meu comportamento com um dos personagens do livro, Melquiades, procurei colocar aqui a resenha dele para reflexões...



Como bom arquétipo de Tirano, ele é vaidoso e não suporta a perda de seu poder. Enquanto as providências finais não chegam, ele trata de dar um fim nada digno a cada um dos prisioneiros. Psicose? Já esclarecemos que talvez... mas justiça também. Socio-educar é preciso, punir é necessário. Sustentar a lenda de que nenhum preso sai dali, por qualquer motivo que seja. 



Ironicamente, é do mesmo sistema que resta a única esperança daqueles homens. Um agente há de vir finalizar o funcionamento da Colônia. A fé, dia após dia, de que será salvo pela chegada desse anjo enviado pelo próprio mal.



Essa ambiguidade é calculada e faz parte da tese de Ana Paula Maia. Seu objetivo é imprimir uma sensação de opressão onipresente e onipotente, inescapável de tal forma que dela vem o mal e também a cura.



A tese e a prosa



Tenho meus problemas com a ideologia imposta pela obra. Mas isso não impede que eu a admire.



 A atmosfera sufocante não é fruto do discurso explícito, mas da própria construção claustrofóbica, da tensão elevada e constante. Da linguagem sintética que busca a limpeza. Guardadas as devidas proporções, por vezes lembrei de Graciliano. Ana Paula é pop no sentido em que se apropria do ritmo sufocante dos thrillers, mas também é erudita a ponto de beber (mesmo que inconscientemente) em um dos maiores escritores brasileiros. 



Tudo bem, guardemos proporções... já disse. Por vezes ela escorrega, principalmente quando abraça com mais garra a tese que quer imprimir.



 Se em alguns instantes brilha pela lacuna planejada ou pela comparação, rica e calculada, em outros repete ideias claras, como um professor sistematizando o capitalismo burguês. 



Falei lá no começo sobre Valdênio. Detento antigo, responsável pela cozinha, sempre poupado pelo diretor. Os dois conversam, falam dos preparos para o jantar, Melquíades comenta sobre as penas que aplica, sua régua de justiça, Valdênio se esquiva... um exemplo primoroso de como Ana Paula Maia se destaca entre nossos escritores. 



“Melquíades caminha ardiloso até bem próximo de Valdênio, como se surrupiasse os pensamentos do homem”. (p.13)



A comparação tornou-se uma muleta de nossa prosa. Vários usam abundantemente como se só por comparar estivessem fazendo literatura. “João saiu apressado, como quem precisa pagar uma conta”. No exemplo hipotético, mas igualmente possível de ser encontrado por aí, vemos um escritor que quer dar cor ao seu texto e acaba só repetindo gratuitamente a mesma ideia. Ou ele “sai apressado” ou “sai como quem precisa pagar uma conta”. Os dois juntos se tornam retórica vazia, firula, adorno barroco em clínica laboratorial.



 Ana Paula dispensa o adorno, coloca uma caminhada ardilosa “como se surrupiasse os pensamentos”. Imprime uma intencionalidade a mais naqueles passos, no aproximar-se.



 E como eu já disse, se comemoro porque brilha, também reclamo porque escorrega. Empolgada com sua tese, reforça, mastiga, didaticamente explica o que não precisa ser explicado.



 Voltando também ao começo, quando falei dos homens carregando corpos na lona, temos um exemplo. “Bronco Gil e Pablo arrastam os corpos usando uma rede de lona. É a mesma que utilizaram outras vezes no mesmo procedimento. O sangue de dezenas de homens transformou a lona branca em um tecido rígido, escuro e fétido.” (p.61, grifo meu).



É um parágrafo curto, três períodos, e o segundo é completamente desnecessário. Pura repetição para deixar muito claro que o louco Melquíades já tinha matado tantos outros homens por ali. Para ter a certeza de que o leitor compreendeu que aquele diretor, daquela prisão, naquele sistema tão opressivo, ceifava vidas repetidamente e indiscriminadamente, sempre no mesmo método e na mesma toada.



 Por sorte, isso pode até diminuir o brilho, mas não completamente.



 A tensão crescente, progressiva, os já destacados capítulos de respiro. O mundo que se desdobra conforme a trama avança. Os personagens que descobrimos também aos pedaços, cheios de ambiguidades, como a própria trama, como o próprio conceito de justiça.



 Ana Paula, como todo humano, acredita em algo e por esse algo, como nem todo humano, milita. Seu livro é “manifesto” — não no sentido formal, mas no plano intencional — e não há problema algum nisso. Afinal, não fazia assim também Graciliano?



Importa que, como ele, ela também faz literatura. E literatura fazendo, seu texto acaba dizendo muito mais do que ela poderia ou pretenderia dizer.



Assim na terra como embaixo da terra tem uma ambiguidade gritante, mas planejada e articulada, como a própria natureza humana. Como o cachorro cuja carne apodrece enquanto ainda vive. Como aqueles homens todos que carregam bombas nas pernas, sombras mortas que se acham vivos por conveniência.



Ana Paula Maia tem uma tese, evidente. Sua tese, contudo, mira no absoluto, num sistema que sufoca pela onipresença. Como o absoluto não é confinável em uma prisão, sua tese transborda em ambiguidades e vazios... e essa “falha” nesse “manifesto” é que o torna tão maravilhoso!



Esse perfil de Melquíades de criar uma ideologia e praticá-la dentro de um contexto rígido, é o que o Amigo Inteligente pode ter associado comigo. Tem uma diferença profunda, pois enquanto procuro com minha ideologia criar uma sociedade ideal, considerando todos como irmãos, desde que façam a vontade do Pai, sem destruir o próximo, mas tentando converte-lo para a Família Universal, a ideologia e Melquíades é destrutiva para com o próximo, prisioneiro, que não tem como fugir da sua condição, a não ser com a morte.


Publicado por Sióstio de Lapa
em 10/10/2026 às 00h01