Como o meu Amigo Inteligente fez um paralelo do meu comportamento com um dos personagens do livro, Melquiades, procurei colocar aqui a resenha dele para reflexões...
Descrevendo assim, parece que estou me contradizendo quando disse lá atrás que o texto não permite simplificações. Um velho trancafiado, uma “vítima da sociedade”, bandidos romantizados... mas há bem mais que isso. Primeiro porque não há um culpado, um vilão a condenar. Bronco entra para o crime em um contexto de disputa de terras. O capitalismo sufoca, mas não tem domínio sozinho. Em outro momento, um homem procura Melquíades porque precisa se vingar de um dos presos. Oferece dinheiro e o diretor recusa. Dinheiro não é tudo. Melquíades entrega o preso amarrado, e fica de longe observando o homem saciar sua sede. Psicopatia? Provável... justiça, talvez, muito mais.
O senso de justiça está gravado no coração dos homens de forma indelével. Virtuosos ou vis, todos temos noções muito claras da harmonia — como diria Platão — ou da equivalência — se preferirmos Aristóteles — que a justiça traz. Isso está estampado no esforço para enterrar o cão doente e também na expectativa agoniada dos presos por mais uma caçada.
Melquíades pode ser maluco, mas é antes homem e essa noção ele também traz. O que diferencia é grau e hierarquia.
Organizações criminosas têm suas próprias noções de justiça. Bronco Gil ingressa na criminalidade “protegendo” uma pessoa de uma percebida vilania, uma injustiça. Melquíades empreende suas caçadas como uma medida “socioeducativa”. Ambos possuem seus padrões morais, sua própria regra de convivência, harmonia, equidade. O que os separa é o centro do poder: um manda, outro obedece.
Acima deles, uma instância decidiu que Melquíades deveria impor a lei. E acima dessa instância outra que por sua vez vem de outra e sucessivamente até perdermos totalmente a expectativa dessa hierarquia opressiva. Daí o livro trazer essa atmosfera densa e etérea, sem uma materialização firme e clara de um verdadeiro vilão. Apesar de Melquíades, claro, que em sua caçada e paranoia surge gigantesco como um monstro de um thriller alucinante que é interrompido pelos respiros necessários dos capítulos do passado.
Esse Sistema opressivo, sufocante, é o verdadeiro grande vilão da trama. É ele que ergue os muros, que institui um tipo de alcatraz no meio do nada e que dele se esquece completamente... como sintoma de uma falência apenas percebida, de um mecanismo que descarta seus experimentos pelo caminho enquanto procura novas saídas.
É nesse momento que o diretor também sufoca, que sente o ar rarefeito, e alcança a definitiva loucura. “Quando receberam a notificação de que a Colônia seria desativada, Melquíades tornou-se ainda mais violento.” (p.25)