Hoje completo meus 74 anos de idade. O Eu, Espírito, que habita o meu corpo, usa a memória para lembrar de todos os detalhes possíveis de minha trajetória. Desde criança, bem pequenina, cerca de 6 meses de idade, sentado sobre uma mesa de madeira em minha casa e engasgado com uma espinha de peixe; depois os tempos de minha educação a partir dos 5 anos, com minha avó, trabalhando com ela em seu bordel e nas ruas vendendo confeitos e estudando na escola do Padre Penha, sendo escoteiro sob sua orientação: “Sempre Alerta” era nosso lema. Visitava a casa da minha mãe onde sentia mais liberdade e até certa proteção com o seu atual companheiro, que apesar de alcoólico, tomava a minha defesa com destemor. Lembro dos amigos com os quais sintonizava, das meninas que queria namorar, mas minha inibição impedia; lembro dos sonhos alimentados pelas revistas em quadrinhos, das dúvidas que vinham a minha cabeça e que eu tinha medo de perguntar... meu corpo sempre mantido saudável pelo constante trabalho se desenvolvia sem atropelo.
Aos 18 anos dei o meu “grito” de liberdade, de autonomia. Resolvi vir sozinho para Natal, servir a Marinha do Brasil, rejeitando a vinda da minha avó que queria me acompanhar, me proteger e me guiar, como ela sempre tentava fazer, ao seu modo, claro. Ao chegar em Natal e ingressar na Escola de Formação de Marinheiros, entrei em novo mundo, cheio de inibições e dificuldade de fazer relacionamentos. Mergulhei nos estudos e fiquei entre os 10 melhores classificados, que poderiam escolher onde queriam servir. Escolhi o Hospital Naval de Natal. Neste espaço institucional continuava os meus estudos e o meu trabalho, como acontecia quando eu morava em Macau com minha avó. Foi neste espaço que me aproximei com mais vigor de igreja evangélica, conheci a minha primeira esposa e consegui entrar no curso de medicina, depois de várias tentativas frustradas em outros concursos. Fazendo esta reflexão agora, vejo com mais clareza a mão de Deus colocando os caminhos que eu poderia seguir de acordo com os meus talentos e intenções.
Aos 23 anos, em 1975, ingressei no curso médico na UFRN. Deixei a Marinha, abri um comércio e dei aulas em colégios públicos para complementar a renda que havia perdido da Marinha, além do Governo Militar da época me conceder um crédito educativo para ser pago após o curso. Mas o Pai, como reconheço agora, tinha outros projetos para mim, compatível com o que Ele sondava em meu coração. Ser o artífice da família universal, acima da família nuclear e família ampliada, sem descuidar delas. Para isso acontecer, eu teria que sair dos princípios rígidos do casamento, da fidelidade conjugal, do amor exclusivo. Para isso se realizar Ele jogou a força dos instintos do Beemote contra os valores éticos que eu estava absorvendo das lições de Cristo. Realmente, o Pai tinha razão quando apostou em mim. Chegou o ponto crítico onde fiz a transposição mental, do amor exclusivo para o amor inclusivo, mas colocando dentro dessa mudança a principal lei que Jesus ensinou: “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”. Assim, as mulheres que se aproximavam de mim, conforme a vontade do Pai, poderiam ser incluídas nesta Árvore do Amor Inclusivo, que eu as consideraria como ramos capazes de produzir frutos com a seiva divina correndo através do meu tronco. Essas mulheres não seriam minha propriedade para atender os meus desejos sexuais, mesmo que isso fosse possível se obedecesse a principal Lei, de trazer benefícios e não malefícios para o próximo.
Hoje, aos 74 anos, vejo a passagem do mEu Espírito por este corpo dado por Deus para ser o mEu veículo. Tenho responsabilidade com ele como tenho pelo carro que dirijo pelas estradas. Ele nasceu para este mundo em 1952 e a partir daí o mEu Espírito passou a aprender e agir neste mundo para me aproximar do Pai no meu retorno para a pátria espiritual. Agora estou colocado no centro das discussões cristãs, dentro das igrejas católicas, evangélicas e espíritas. Tenho uma companheira que conhece o meu principal projeto de vida e se esforça para participar da minha Árvore do Amor Inclusivo, não como uma imposição, mas por saber que é um projeto de Deus e que está acima de qualquer preconceito que possamos ter com qualquer pessoa. Na UFRN desenvolvo os projetos direcionados para os valores espirituais, tanto na graduação quanto na extensão.
O Pai mandou um aviso para mim através de uma amiga que me presenteou um livro, Panorama da Bíblia, que informa o nascimento de Abrão, o pai da fé, ter nascido no ano de 1952 antes de Cristo. E foi aos 75 anos que ele recebeu o comando do Senhor para sair da sua terra em busca de outra, mais adequada aos seus filhos, aqueles que o reconhecem como pai e que querem fazer a Sua vontade, formando grandes nações. Como eu nasci no ano de 1952 depois de Cristo, e faço 75 anos no próximo ano, tempo que deverei sair oficialmente dos cargos que tenho na UFRN, devo esperar do Pai um comando para seguir. Qual será?