Sióstio de Lapa
Pensamentos e Sentimentos
Meu Diário
25/02/2015 23h59
PROTEÇÃO DE FRANCISCO

            Existe no livro “Fontes Franciscanas e Clareanas” no Tratado dos milagres, Cap. XII – das mulheres salvas dos perigos do parto... – uma série de relatos de parturientes cujas vidas dos filhos foram salvas por solicitação da interveniência de São Francisco.

            O meu caso é muito parecido. Sou o primogênito dos meus pais e minha mãe correu sério risco e eu também na hora do parto. Não havia como hoje os recursos institucionais, hospitalares, da medicina. Minha mãe foi assistida por uma parteira na sua humilde casa. Eu me desenvolvi dotado de uma cabeça grande e o canal do parto era estreito com o agravante de nunca ter sido usado para a passagem de uma criança. O problema estava formado!

            A parteira lutava com todas as suas forças segurando minha cabeça e procurando me puxar por tão estreita passagem. Até hoje possuo a marca de seus dedos na minha cabeça e um ligeiro desvio da cabeça sobre a coluna, que incomodam os fotógrafos quando vão me posicionar para fotos.

            Nessa situação de impasse, de aperreio, onde o tempo trazia a morte cada vez mais próxima de mim e da minha mãe, alguém lembrou de São Francisco. Não sei se foi algum dos meus familiares envolvidos na aflição, ou se foi a parteira que sabia desses cuidados do santo com as crianças. O fato é que foi feita a promessa de que se eu saísse vivo dessa contenda receberia o nome de Francisco.

            Então, milagre feito, promessa cumprida! Felizmente, pois vejo na leitura desse livro que as pessoas que de algum modo se arrependeram ou menosprezaram a promessa feita, o coitado do filho é quem “pagava o pato”. Voltava a correr risco de vida ou sofria algum tipo de doença incurável. Parece-me uma ação pouco cristã para um santo, cobrar uma dívida dessa forma, mas... pode ter alguma justificativa que minha inteligência atual ainda não alcançou. O certo é que comigo isso não aconteceu. Todos os meus parentes acataram sem repressão o nome escolhido e até era aconchegado com variações carinhosas: Francisquinho, Chiquinho, Titico...

            Durante o período da infância não me incomodava esse nome, mas da adolescência em diante passeia a achá-lo um nome muito comum, simplório, que identificava muitas pessoas. Será que todos eles deviam alguma coisa a São Francisco? Vem agora à minha mente essa interrogação que eu não tinha conhecimento antes para fazê-la.

            Quando fui servir a Marinha do Brasil aos 18 anos de idade, recebi naquela instituição o nome de guerra Rodrigues, o meu sobrenome, com o qual passei a ser identificado. Fiquei muito orgulhoso e deixei de lado o Francisco. Agora eu dizia a todos que perguntavam pelo meu nome que eu me chamava Rodrigues, e depois que me formei em medicina, o Dr. Rodrigues. Quem perguntasse por Francisco, ninguém sabia quem era.

            Com o avanço dos meus estudos e aquisição de novos conhecimentos, passei a ver a importância do mundo espiritual, de sua prioridade frente ao mundo material, da necessidade de fazer a vontade de Deus seguindo as lições de espíritos evoluídos. Foi aí que percebi a importância de Jesus de Nazaré e daqueles que aplicavam suas lições com maior fidedignidade, entre eles Francisco de Assis. Nesse momento a importância do meu primeiro nome voltou a minha consciência e passei a assinar quando conveniente, Francisco Rodrigues, principalmente na marcação dos meus livros, o que eu fazia antes usando apenas o nome Rodrigues.

            Agora, cada vez mais que tenho a consciência dos compromissos espirituais, mais vejo a importância do meu primeiro nome, que ele tenha sido colocado numa espécie de negociação para salvar minha vida. Mas se hoje eu tivesse que decidir por qual nome usar para identificar a minha vida e os meus projetos intuídos por Deus, eu optaria mais uma vez por Francisco.

Publicado por Sióstio de Lapa
em 25/02/2015 às 23h59
 
24/02/2015 23h59
TUDO QUE SE QUER

            Ainda sob a influência de “O Fantasma da Ópera” procurei ver no youtube a interpretação de sua música por diversos cantores. Encontrei uma bela versão interpretada por Emílio Santiago e fiz fortes reflexões do conteúdo da letra, associando ao que S devia ter sentido ao ouvi-la. Pois então, vejamos:

 

TUDO QUE SE QUER (O FANTASMA DA ÓPERA)

 

Olha nos meus olhos,

Esquece o que passou

Aqui neste momento

Silêncio e sentimento

Sou o teu poeta, eu sou teu cantor

Teu rei e teu escravo

Teu rio e tua estrada

 

            Esta é a minha fala. É o sentimento que eu procurava passar para ela e que ela tão bem identificou na canção. Este sentimento dela coincidiu com o meu, desde que seja aplicado ao período em que morávamos juntos. Eu tinha esse sentimento de que ela esquecesse tudo de ruim que existiu em sua vida, apenas olhando em meus olhos e vendo apenas os meus sentimentos. Queria que ela visse o quanto eu era para ela: poeta, cantor, rei, escravo, rio, estrada, professor, aluno... vida!

 

“Vem comigo, meu amado, amigo

Nessa noite clara de verão

Seja sempre, o meu melhor presente

Seja tudo sempre como é

E tudo que se quer”

 

            Esses versos entre aspas é a fala dela. Também coincide os meus pensamentos e sentimentos com os pensamentos e sentimentos dela nos primeiros versos. Estava sempre disposto a ir com ela, não somente em noite clara de verão, mas também nos momentos difíceis, escuros, tormentosos. Eu estava disposto a ser o seu melhor presente, um homem que ao seu lado ela não podia sentir falta de nada, desde o amor espiritual ao sexo selvagem ou domesticado. Mas essa situação não podia ser sempre como era, pois as necessidades da vida me obrigavam a deixar esse idílio e ir à busca de prover a nossa sobrevivência no mundo material. Apesar disso, tudo que ela queria era que eu fosse como era e somente dela. Era tudo que ela queria. Acontece que o meu coração amarrado ao dela por tão belo afeto, estava comprometido com a vontade de Deus, de praticar não o amor romântico, condicional, exclusivo, com prioridade, como ela queria, mas sim o Amor Incondicional como Deus me determinara. De amar dessa forma todas que Ele enviasse ao meu lado, como aconteceu com ela. Eu não poderia ser infiel a esse sentimento, senão desabaria de forma implosiva toda estrutura do meu ser. Ela não poderia jamais incluir no seu tudo de querer, essa obrigação para mim, de ser exclusivo para ela.  

 

Leve como o vento

Quente como o sol

Em paz na claridade

Sem medo e sem saudade

 

            Esta é a minha fala, é isto realmente que me proponha. Ser leve como o vento, não exigir controle sobre ela, não ter ciúme sobre sua vida, de lhe dar plena liberdade de ir e vir para onde e com quem quisesse. Ser quente como o sol, de oferecer toda a intensidade do meu amor, dos carinhos do corpo aos afagos da alma, sem nenhum obstáculo entre mim e ela, obstáculo esse que fosse provocado por mim. Viveria com ela na paz, na claridade da verdade, na transparência, na harmonia. Não teria medo de nada que pudesse acontecer, pois eu sabia que a força do meu amor superaria qualquer desafio, até o maior deles, sabê-la dando o seu amor a outro e respeitar como sagrado esse relacionamento e até amar ao objeto do seu amor, mesmo que isso implicasse em tê-la afastada de mim por alguns momentos ou por toda a vida. Apenas a saudade eu não deixaria de sentir com a sua ausência, pois a saudade seria o seu amor perto de mim na sua ausência, como até hoje ocorre.

 

“Livre como o sonho

Alegre como a luz

Desejo e fantasia

Em plena harmonia”

 

            Sim, perfeito! Era isso que eu queria que ela alcançasse. Estar livre como o melhor sonho que ela já teve na vida. Ficar sempre alegre e brilhante, reproduzindo a felicidade que eu lhe proporcionava. Agora, os desejos e fantasias dela eu não conseguia cumprir, pois se assim fizesse eu me destruiria. Ela desejava que eu tivesse todo esse amor exclusivo para ela. Esta era a fantasia que ela criava para tudo se tornar harmônico em sua vida. E o meu compromisso com o Pai era de sempre oferecer essa mesma qualidade de amor por qualquer pessoa que Ele me enviasse e que atendesse as exigências do Amor Incondicional.

 

Eu sou teu homem

Sou teu pai, teu filho

Sou aquele que te tem amor

Sou teu par, o teu melhor amigo...

Vou contigo seja aonde for

E onde estiver estou

 

            Esta era a minha carta de compromisso com ela. Ser o seu homem, seu pai, seu filho; ter amor para sempre lhe dar, ser o seu par, e o seu melhor amigo. Aonde ela fosse eu iria com ela, material ou espiritualmente, onde ela estivesse eu aí estaria. Mas nunca de forma coercitiva, de obrigá-la a fazer apenas minha vontade. Pelo contrário, ela tinha plena liberdade de fazer o que desejava, o que seu coração pedisse, em qualquer lugar, com qualquer pessoa. Minha mão sempre estaria aberta para ela por pleno amor, jamais se fecharia, como até hoje, apesar de todas as decepções que vêm à minha mente, jamais fechei as portas do meu coração para ela.

 

“Vem comigo meu amado, amigo

Sou teu barco neste mar de amor

Sou a vela que te leva longe

Da tristeza eu sei, eu vou”

 

            Estes últimos versos são cantados em dueto. Passa a ideia de que o coração do Fantasma da Ópera estava diluído no coração de sua amada e vice-versa, numa situação de total exclusividade exigida por ele e cujo sentimento sintonizou com o sentimento de minha amada. Nesse sentido ela é muito mais parecida com Fantasma da Ópera do que eu, pois o seu amor era totalmente guiado pelo amor romântico como assim era o amor dele. Esse dueto cantado por nós dois teria assim um novo significado. Ela pensando em aplicar o amor romântico e eu o amor incondicional. Parece que o último verso era premonitório. Da incompatibilidade dos nossos pensamentos surgiria a tristeza que eu jamais imaginava ser tão destruidora, principalmente para ela. O meu amor incondicional me protege; o seu amor romântico a corrói, deteriora e isola, do mundo e do amor como ele deve ser, como Paulo tão bem explicou em Coríntios.

 

E onde estiver estou

 

E onde estiver estou

 

            Finalmente, os últimos versos se repetem como se sinalizassem que nós e o nosso amor incompatível está preso por uma espécie de “Feitiço de Áquila”. Esse feitiço obriga aos dois amantes viverem separados, não podem se encontrar, mesmo cada um vivendo perto um do outro, ou na forma de lobo, ou na forma de águia. O nosso caso ainda é pior, pois no caso dos amantes de Áquila existia um pequeno espaço entre o nascer e o por do sol que eles podiam se olhar com todo o amor que possuíam um pelo outro, que podiam se acariciar, conversar e derramar as lágrimas pela separação imposta pelo feitiço. Sabiam que existia uma forma de destruir o feitiço e desse conhecimento eles tinham uma grande esperança. O nosso “feitiço” impede qualquer tipo de aproximação. Não posso fitar os seus olhos, pois eles caem como se o feitiço os atraísse para o chão, ou então ficam obnubilados sem verem a luz do amor; não posso tocar em sua pele, pois seus músculos se contraem e a rigidez impede a maciez dos afetos; nossas palavras não conseguem traduzir a linguagem do coração, parece até que uma mordaça foi instalada ou uma torre de Babel construída. A confiança foi transformada para ela em desconfiança. No nosso caso o feitiço é muito mais cruel, pois não há esperança para nós do reencontro afetivo e jamais deixaremos de estar juntos; onde ela estiver eu estarei, e onde eu estiver ela estará... até o fim dos tempos!

Publicado por Sióstio de Lapa
em 24/02/2015 às 23h59
 
23/02/2015 23h59
TROPEÇOS E QUEDAS

            Termina hoje a primeira semana que estou no deserto psicológico. A minha tentativa de ser mais rigoroso desta vez do que fui no ano passado, foi por água abaixo. Tropecei e cai nas diversas tentações da carne, escapando com muito esforço o controle sob a gula com o artifício do jejum. Isso porque nos momentos que eu exagero, como ontem, que mesmo no controle do que eu poderia me alimentar eu voltei do Flat para o apartamento com um aumento de dois quilos. Felizmente com o artifício do exercício forçado, eu consegui manter a linha descendente do peso, mesmo com a perda de 100 grama, quando a média do que eu devo perder por dia deve ser de 500 grama.

            Os exercícios espirituais de Santo Inácio de Loyola que eu pretendia fazer logo nos primeiros dias, não consegui até agora fazer nem o planejamento. Parece que não será ainda neste ano que eu conseguirei. Mas manterei a esperança, se surgir uma força extra dentro de mim eu procurarei colocá-los em prática. Mas da forma que tudo vai indo eu acredito que não terei pernas para fazê-los.

            Ora, se eu tenho dificuldades em colocar na prática ações que só dependem de mim, quanto mais será difícil colocar na prática ações que dependem também de outras pessoas e que da mesma forma que eu ou até com mais dificuldades, sofrem barreiras para praticar o que prometem. São esses tropeços e quedas que são tão comuns entre nós, humanos, que devem nos trazer a consciência da necessidade de sermos fraternos uns com os outros.

            Irei continuar dentro do deserto, mas agora sem tanta expectativa como tinha antes. Cada vez estou tomando mais consciência de que as forças que estão dentro de mim, da minha carne, são muito poderosas. Eu posso ter toda a boa intenção de corrigir o que percebo de errado, mas a própria mente que está intimamente ligada à carne elabora sentimentos e pensamentos que são contrários ao que tenciono fazer.

            A força negativa que mais eu consigo enfrentar e conquistar algumas vitórias significativas é a gula, o desejo de comer além das necessidades biológicas. Para isso utilizo a estratégia do jejum, mas mesmo assim eu sinto uma série de desejos surgindo no palco da minha mente e elaborando pensamentos para eu quebrar o ritmo do jejum. Percebendo isso eu procuro ficar armado com uma série de elementos motivadores da perda de peso, como o registro de toda a vitória que conquisto e um gráfico onde coloco a meta a ser alcançada, pelo menos no período que estou disposto a fazer o enfrentamento.

            Esse monte de tropeços e quedas que eu sofro em pleno período em que eu devia estar mais fortalecido, me faz ter consciência de que quando eu sair desse controle, desse deserto psicológico, as forças do corpo estão com uma força bem maior. Fico desde já a pensar na comilança que irei fazer no primeiro dia que eu sair desse deserto, como aconteceu no ano passado. Eu sei que do ponto de vista espiritual isso está errado, tanto do ponto de vista quantitativo (eu como muito) quanto do qualitativo (eu como alimentos que devia evitar, carnes vermelhas, de mamíferos por exemplo).

            Todos esses tropeços e quedas que eu sofro tanto aqui no deserto quanto fora dele, são fatos que me fazem acreditar voltar muitas vezes ao plano material da Terra para tentar vencer esse obstáculo. A vantagem (ou desvantagem) que tenho é que não sou mais ignorante sobre essas necessidades espirituais. Sei que deverei retornar outras vezes ao plano material da Terra para aprender e praticar o que interessa ao mundo espiritual, ao Pai eterno. O que me deixa mais satisfeito é saber que procuro fazer o que de mais importante eu tenho que aprender, que é a capacidade de amar de forma incondicional. Isso talvez sirva para cobrir a multidão de pecados que eu não consigo ainda evitar.

Publicado por Sióstio de Lapa
em 23/02/2015 às 23h59
 
22/02/2015 23h59
A MULHER IDEAL

            Hoje estava no Flat da Redinha em reunião em reunião com os parentes e amigos, avaliando um texto evangélico e cada um dando sua opinião, quando uma das minhas companheiras vez a seguinte observação.

            - Eu acompanho Rodrigues e por causa disso sou muito criticada. Por ele ter outras companheiras, minha família diz que eu faço papel de idiota e até no trabalho ninguém acredita que nosso relacionamento não implica em sexo. Mas eu tenho a consciência tranquila de que me sinto bem ao lado dele sem necessidade de sexo, gosto da companhia dele e da companhia dos seus irmãos. É tanto que a minha irmã falou para um senhor que pensava em casar comigo, que isso não iria dar certo, pois eu não deixava a companhia do meu ex-marido. E complicou ainda mais a situação, quando  ele foi até a minha casa para me conhecer melhor e viu um retrato de Rodrigues em posição de destaque. Ele falou que isso confirmava o que minha irmã tinha advertido e parece que acabou o interesse no casamento. Então é isso que acontece comigo e não vou deixar de acompanhar Rodrigues por causa desses comentários. Eu só poderia deixar de acompanhá-lo se ele resolvesse morar com uma mulher, aquela que ele considerasse a mulher ideal. Nessa condição eu não voltaria mais a ficar em sua companhia em respeito a essa pessoa que estaria morando com ele.

            Todos ouviram em silencio essas observações e ninguém fez nenhuma consideração. Nem mesmo eu. Mas como meu raciocínio é lento para situações como essa, geralmente eu fico remoendo o caso até chegar a uma conclusão. E quando chego a uma conclusão a situação já é outra. Foi assim que aconteceu com essa observação dela. Eu teria que dar uma resposta naquele momento, mas com certeza outro momento irá aparecer e eu já terei os argumentos amadurecidos na minha mente para responder e até esclarecer alguns equívocos, tanto para ela como para quem esteja ouvindo. Os meus argumentos seriam dessa forma e que eu poderia ter respondido naquela ocasião:

             - Você está equivocada num ponto muito importante. Você está pensando que a mulher ideal para mim seria aquela que afastaria todas as outras. É exatamente o contrário. A mulher ideal para mim é aquela que pensa, sente e age como eu, com relação ao Amor Incondicional. Ela amará as pessoas que eu amo, talvez com mais intensidade do que eu amo. Procurará ver o bem estar delas, mesmo que para isso ela tenha que sentir a saudade da minha ausência, por saber que eu estou com qualquer uma delas, pelo tempo que for necessário, sem cobrança de nenhuma natureza. Então, se eu encontro a mulher com esse perfil, todas as outras se sentirão até mais confortáveis na presença dela do que na minha presença. Então, minha querida companheira, você estaria muito mais ligada a mim do que agora voce está, vivendo nesta convivência com minhas outras companheiras que se digladiam explícita ou implicitamente por minha companhia.

              Era esse reparo importante que eu devia ter feito para mostrar que eu jamais irei abandonar nenhuma de minhas companheiras, como até agora eu me comporto. E ela mesma sabe disso, pois ela viu que eu senti uma grande paixão por outra pessoa quando estava casado com ela e não cogitei em nenhum momento em abandoná-la. Pelo contrário, foi ela quem me expulsou de casa.

Publicado por Sióstio de Lapa
em 22/02/2015 às 23h59
 
21/02/2015 23h59
TENTAÇÃO INUSITADA

            Hoje sofri uma tentação inusitada quando retornava de Caicó para Natal, depois do trabalho que realizo naquela cidade. Comprei como de costume a passagem com a cadeira nos fundos do ônibus, pois como sempre não viaja lotado, eu teria oportunidade de usar a cadeira ao lado com meus livros, revistas e notebook. Infelizmente desta vez não tive a mesma sorte. O ônibus estava lotado e sentou ao meu lado um rapaz de cerca de 30 anos, usava óculos, e era gordo. Muito mais gordo do que eu me considero ainda neste momento. O rapaz tentou sentar normalmente na cadeira, mas não conseguiu encostar suas costas ao lado das minhas. A minha cadeira como era a última ficava ao lado do bebedouro do ônibus e assim fazia uma espécie de caixa onde os passageiros tinham que se encaixar. Era suficiente para duas pessoas normais, mas incompatíveis para dois gordos. Eu fui o primeiro a entrar no ônibus, já estava devidamente instalado, inclusive tive que tirar minha pasta e colocar no colo, para ele sentar. Agora não era interessante eu tirar as minhas costas para ele se apoiar. Ele ainda olhou para todos os outros assentos, mas todos estavam ocupados. Se resignou a ficar sentado sem apoiar as costas. Eu não fiz o mínimo gesto de ser solidário, de tirar as minhas costas para ele apoiar as dele. Não fiquei com remorsos devido a isso, pois alem de ser mais idoso eu havia chegado primeiro. O ônibus deu partida e quando ele cansou daquela posição incômoda procurou se apoiar no encosto da cadeira com o seu corpo virado para mim. Senti o seu abdome em contato com o meu corpo, mas não me incomodei, sabia que ele estava em situação difícil.

            Durante o trajeto do ônibus a posição do sol entrou pela janela e atingia nós dois. Como eu estava no controle da janela, fiz a cortesia de fechar a cortina, apesar do sol não me incomodar. Notei seu ar de satisfação com minha atitude e com o ar de penumbra que se formou em nossa poltrona. Ele se aconchegou com mais satisfação onde estava, com sua mão um pouco acima do meu joelho. Eu continuava a ler minha revista sem disposição, como sempre estou, para muita conversa... ou pouca. Daí a pouco eu senti que a sua mão tocava o meu joelho. Eu imaginei que ele havia cochilado e sua mão havia descido involuntariamente. Não tive coragem para checar olhando para seu rosto. Vai ver que ele estava acordado e olhando para mim? Esse cruzamento de olhar poderia ser fatal. Bom... mas isso eram conjecturas com as quais eu não devia me preocupar. Continuei a minha leitura. Acontece que eu percebia que a mão do gordo descia e subia pela minha coxa. Comecei a ficar preocupado, a dúvida me atormentava, se ele estava acordado ou não, se aquela descida da mão era simplesmente o efeito da gravidade ou se existia outros interesses por trás... também continuava sem coragem de confirmar se o cara estava com o olho aberto ou não. Mas tive que reagir rapidamente quando percebi que aquela mão ganhava vida e os dedos como tentáculos se aproximavam perigosamente da minha área vital. Puxei instintivamente a minha bolsa para cima de minha área genital, não me preocupando em ser educado com aquela mão invasora. Ele se mexeu mesmo sem jeito no seu lado da poltrona, justificando com um risinho amarelo: apertado aqui, não é? Não respondi com a voz, mas o meu jeito meio com medo, meio com raiva, foi quem disse que eu não estava nada feliz. Ele não saiu da posição em que estava, apenas voltou a mão para colocá-la na posição original, acima do meu joelho. Vi que aquela mão nervosa poderia voltar a agir, e abri novamente a cortina da janela não me incomodando com a ação do sol sobre meu inconveniente vizinho. Foi como o efeito da luz do sol sobre um vampiro. O meu vizinho voltou a ficar na sua posição forçada longe do encosto da cadeira até a parada na próxima cidade onde desceram alguns passageiros e para a minha sorte ele se transferiu para outra cadeira.

            Fiquei a pensar nessa tentação inusitada que sofri, se aquela mão tentadora pertencesse a um corpo feminino jovem, cheio de curvas e hormônios, se eu não teria sucumbido aos desejos obscuros, masculinos, naquela penumbra cúmplice. Percebi que Deus fora bondoso comigo e me fez passar por um teste onde eu tinha naturalmente um alto grau de rejeição.

            Um pouco mais adiante o novo vizinho do gordo chegou perto de mim, como se tivesse fiscalizando o ambiente, dizendo que “aquele gordo saiu daqui e foi me imprensar na minha cadeira”. Mostrei a ele que aonde ele estava era pior ainda. Ele olhou sem muita convicção e voltou para a sua “via crucis”... Afinal, Natal já estava perto.

Publicado por Sióstio de Lapa
em 21/02/2015 às 23h59
Página 703 de 932