Meu Diário
14/03/2020 23h59
FLOR DO OUTONO

            A Natureza é bela, digna representante da imagem do Criador. Nela está inserida uma sabedoria que nenhum dos maiores gênios da humanidade chegou perto. Contemplo as estações e vejo a dança do reino vegetal como se quisesse encantar o reino animal, principalmente a nós, seres humanos, com nossos olhos sofisticados e cérebros qualificados como o suprassumo da racionalidade.

            Observo o verdor das folhas que se abraçam com os raios do sol, produzindo frutos e cheiros. O tempo passa, as frutas amadurem, as folhas amarelam e caem. A nostalgia parece dá o tom da natureza. É o outono da existência.

            Mas eis que vejo, lá no meio uma flor. Como pode um ser tão frágil desafiar o poder da Natureza? Da sua caminhada inexorável em direção ao fim? A flor rebelde perfuma a nostalgia da despedida, enfeita a cena da melancolia com seu vigor derradeiro.

            Essa flor é minha conselheira. Estou no outono da minha vida, minhas folhas amareladas já começam a cair. Mas o meu coração, como flor rebelde quer manter o viço do amor, mesmo que não tenha os gametas reprodutores, mas quer perfumar o ambiente com gestos e sorrisos, beijos e abraços.

            Eu destoo de todos ao redor, que cabisbaixos seguem a rotina de uma vida cadente, cambaleantes, em direção ao sepulcro, reta final de tal corrida.

            Sou amante da Natureza, mas agora filho rebelde, não quero acompanha-la em seus acordes melancólicos. Devo gastar minhas últimas energias na beleza de minhas formas, na maciez de minhas pétalas, na essência do meu perfume.

            Quero que, no último alento, seja eu oferecido como prova de amor por algum amante apaixonado que me leva para sua amada; quero representar a cola de unir corações, ver o sorriso da donzela ao me fitar; quero ser colocado num jarro com agua no meio da sala, como prova que o amor pode se expressar na mais suntuosa mansão ou na mais humilde casinha, na beira mar ao som das ondas quebrando na praia, ou no alto da montanha, ouvindo o som da cascata se desmanchando no abismo verdejante de uma floresta virgem da ganância humana..

            Quero, ao sentir minha pétalas murchando inexoravelmente, exalar a última gota de perfume ao abraço dos primeiros raios do sol do novo dia, como uma oferenda ao Deus criador pelo presente recebido de ter vivido, de amar e de ser amado; que as primeiras estrelas do crepúsculo, venha ajudar a iluminar meus últimos restos de beleza, como bilhões de velas a crepitar no infinito espaço em honra de tão finito e explosivo amor.

            Sim, serei essa flor do outono, filho rebelde do Criador, mas que deixarei nEle o orgulho de ter criado um ser tão minúsculo e tão próximo da Sua magnitude; que trouxe pinturas do amor onde Ele não imaginara por.


Publicado por Sióstio de Lapa em 14/03/2020 às 23h59
 
13/03/2020 23h21
DEUS, UM CONCEITO PLÁSTICO

            Com o aprofundamento dos meus estudos, entendo hoje a realidade do mundo espiritual, a hierarquia dos seres vivos, encarnados ou desencarnados, e a evolução que acontece nos dois lados da existência, material e espiritual. Não tenho nenhuma dúvida sobre isso, com todas as comprovações que recebo dos experimentos científicos e dos fatos corroborados pela lógica e coerência. Tudo isso merece da minha consciência, muita consistência, tudo que aprendo a partir deste ponto racional em que estou inserido com minhas convicções.

            No entanto, o conceito de Deus assume um aspecto mais plástico, mais abstrato, com menos domínio cognitivo. Inicialmente eu acreditava naquele velhinho de longas barbas brancas que a igreja católica ensinava. Com o meu aprofundamento no mundo científico, observei que essa figura do Deus-velhinho não se ajustava na coerência do que eu já tinha conhecimento. Essa decepção me jogou por um tempo no ateísmo, não acreditava na personalidade humana de Deus.

            Com minha aproximação da Doutrina Espírita, passei a compreender Deus de outra forma, uma inteligência suprema, capaz de criar universos e as diversas moradas do Pai, como o Cristo defendia. Essa ideia, mesmo não tendo nenhum aspecto consistente fisicamente, como posso observar no mundo espiritual, tem uma forte aceitação nos meus critérios de coerência.

            Cada vez mais essa ideia do Criador vai se cristalizando na minha consciência e os Seus atributos no meu pensamento e raciocínio. Já não vejo o acaso na natureza, vejo a expressão de Deus, nos acontecimentos e nos relacionamentos, apesar dos equívocos que ainda mantemos no uso do livre arbítrio. Tudo que vejo são caminhos colocados à minha disposição pela sabedoria de Deus. Só consigo avançar nessa escalada da evolução, se eu conseguir ir pelo caminho correto.

            A minha ignorância ainda muito grande, associada aos desejos da carne, são fatores importantes para os erros que ainda cometo. Procuro seguir a bússola comportamental que o Cristo nos ensinou para não cometer erros, nem comigo mesmo nem com o próximo. Sei que o meu caminho evolutivo deve estar sintonizado com a minha consciência onde está localizada a lei de Deus. Posso cometer erros, como acontece frequentemente com a alimentação, quando a gula se impõe e faço consumo alimentar acima do que tinha proposto. Este é um desvio claro do caminho da minha evolução, adquiro condições insalubres de existência com favorecimento de doenças manifestas.

            O conceito de Deus que está no momento em meus paradigmas, mesmo com a característica plástica, serve como o norte para onde minha bússola consciencial aponta, e isso me deixa satisfeito e confiante na caminhada.


Publicado por Sióstio de Lapa em 13/03/2020 às 23h21
 
12/03/2020 17h22
RECAÍDAS

            Como entender a decisão de fazer determinada coisa, e sem nenhuma interferência externa não poder cumprir o que foi determinado conosco mesmo? Isso acontece muito com pessoas que se tornaram dependentes de alguma substância química. É a chamada recaída, num comportamento que não queríamos mais praticar. Tenho contato constante com esse tipo de problema, relacionado ao meu trabalho com dependentes químicos. A maioria passa por esse problema, mesmo sabendo que esse comportamento está destruindo suas vidas e de seus familiares.

            Porém, esse comportamento de recaídas não está presente apenas em quem é dependente químico, é bem mais comum do que podemos imaginar. Inclusive para pessoas que tem preparo psicológico e sabem como funciona diversos mecanismos de instintos e motivação. Todos esses mecanismos deveriam estar subordinados à vontade racional, que é o elemento que é acionado pelos mecanismos de avaliação e diagnóstico do nosso sofisticado córtex cerebral, principalmente nas áreas pré-frontais.

            Enfrentei esse problema e vi quanto poderoso é esse mecanismo psicológico que está subordinado aos mecanismos biológicos, que podem estar associado à sobrevivência do corpo. Durante este período de Quaresma, procuro fazer uma dieta rigorosa para reduzir o sobrepeso que adquiri ao longo do ano. Sei que o melhor seria uma adaptação alimentar para não gerar o sobrepeso, mas racionalmente eu preferi ter o prazer da alimentação mesmo gerando o sobrepeso, para neste período fazer a correção nos 40 dias. Consigo fazer isso, pois associo este momento ao compromisso espiritual que mantenho nas minhas convicções.

            Já estou com 15 dias neste compromisso cujo referencial objetivo é a perda de peso que deve acontecer a cada dia, auxiliado pelo exercício físico quando eu exagero na alimentação. Acontece que enfrentei uma verdadeira queda de braço entre o desejo do corpo e a vontade racional aliado ao compromisso espiritual, e, venci no primeiro round e perdi desastradamente no segundo.

            No primeiro round, ao chegar em casa exagerei no consumo de frutas. No dia seguinte fiz todo o controle necessário e mantive a perda de peso programada. Porém, na sequência, perdi todo o controle racional e o exagero foi bem maior que no dia anterior. Consumi alimentos num nível que o meu esforço não chega a compensar. Tenho que registrar o aumento de peso superior aos três dias de perda.

            Coloco essa questão para refletir sobre a força desses mecanismos psicológicos que atuam à nível de consciência, mas que podem ter estratégias de eliminar a força do racional. Isso pode servir para a minha compreensão dos meus pacientes dependentes químicos. Como é que sento à mesa, consciente que vou comer de forma limitada, mas de repente surge um comportamento de repetição, de procura por novos alimentos, sem que o racional identifique e acione a vontade para parar o ritmo dos acontecimentos? Parece que um mecanismo a nível subconsciente foi acionado e o racional foi desativado à nível de consciência. Sendo isso verdade, as recaídas serão uma constante, pois não terei a vontade sendo dirigida pelo racional e sim pelos mecanismos inconscientes da preservação do corpo.

            Mas, o racional encontra outra solução. Basta saber das causas das recaídas para que outras estratégias sejam elaboradas. Por exemplo, antes de chegar na mesa, sabendo que posso ser derrotado pelos mecanismos inconscientes, posso deixar previamente determinado o que irei consumir, com o compromisso prévio de não aumentar por nenhuma argumentação racional ou desejo, pois todos estão comprometidos com os interesses do corpo e não do espírito. Veremos o que acontecerá nos próximos embates.


Publicado por Sióstio de Lapa em 12/03/2020 às 17h22
 
11/03/2020 23h36
HOMENS E TEMPOS

            Encontrei na net esse texto que reproduzo abaixo, de autor desconhecido, que serve bem para nossa reflexão:

Homens de 18 anos pilotavam caças spitfire para defender Londres, que era bombardeada por pilotos da Luftwaffe, de 19 anos.

Com a guerra milhões morreram e os que sobreviveram voltaram para casa e tiveram que trabalhar duro para reconstruir seus países, tiveram filhos e envelheceram.

Comiam o que tinha pra comer. Economizavam o que podiam e cuidavam de suas famílias.

Hoje a adolescência vai até os 35 anos. Muitas crises. Mundo cruel. Muitas decisões. Muita pressão. Tudo o que foi construído, até hoje, está equivocado.

Caras de 30 anos tomam todynho, fazem depilação, usam óleos especiais na barba - desenhada. Praticam Tai Chi Chuan.

Depois de uma semana árdua de trabalho, de 6 horas com 2 de almoço - digitando em teclados ergonômicos, reúnem-se com amigos, igualmente estressados em bares modernos - com ar condicionado, com mesas posicionadas segundo feng chui, ao som de Pablo Vitar e Ludmilla.

Pedem suflê de mandioquinha com alho poró, com traços de curry e framboesa selvagem - e harmonizam-na com caipirinha de aguardente de alecrim, com mixed de saquê e vinho crianza catalão, com adoçante natural destilado da casca da mini-jaca colombiana.

Finalizam com uma taça de café gourmet gelado (descafeinado, é claro), aromatizado com favas de baunilha de Madagascar e raspas de limão siciliano.

Conclusão: Tempos difíceis criam homens fortes. Homens fortes criam tempos fáceis. Tempos fáceis criam homens fracos. Homens fracos criam tempos difíceis.

            Texto curto, mas coloca com precisão fatos que mostram o pendular da sociedade, ora com mais facilidades, outras com maiores dificuldades. Tudo isso em decorrência das facilidades ou dificuldades que os jovens tenham vivido. O mesmo efeito também pode ser observado à nível familiar. Naquelas que passam por maiores dificuldades, desde que tenham uma orientação correta, também podem criar tempos com maiores facilidades no futuro.

            Hoje vivemos numa sociedade que apresenta muitas dificuldades em decorrência da facilidade, de uma educação sem limites que foi colocada à disposição dos jovens, onde os pais não cumpriram com seus papeis. Hoje sofremos as consequências, professores que são ameaçados e até surrados por alunos, bandidos que circulam livremente pelas ruas, armados, enquanto os cidadãos se trancam dentro dos seus comércios ou residências, desarmados.  

            Talvez aprendamos a lição e eduquemos nossos filhos dentro de um padrão coerente com a formação de um bom cidadão.


Publicado por Sióstio de Lapa em 11/03/2020 às 23h36
 
10/03/2020 22h09
O ANJO NEGRO

            Encontrei um texto com este título, como episódio pouco conhecido da História do Brasil. Rafael, o Anjo Negro de Pedro II. Eu não conhecia e como achei interessante, disponibilizo para meus leitores com minhas reflexões.

Rafael, negro veterano da Guerra da Cisplatina, foi encarregado de cuidar de Dom Pedro II, então de tenríssima idade pelo seu pai o Imperador Dom Pedro I, quando este regressou a Portugal.

Rafael, foi mandado vir em 1821 do sul, Pedro I conhecia-o bem. Foi um protetor incansável e extremamente abnegado de Pedro II ainda menino. Dormia no mesmo quarto, evitava que o Imperador chorasse ou se assustasse “com medo das almas de outro mundo” e outras fantasias tão próprias da solidão, em que prevaleciam estudo áridos, religião, serões insípidos e jogos de mesa silenciosamente praticados – era a educação principesca!

Nisso relata-nos Benedito Freitas:

“Incumbido da guarda e proteção de Dom Pedro II ainda em tenra idade, foi de uma dedicação tal que, até determinadas atribuições das Damas, ele as executava com desembaraço e plena eficiência. Dava-lhe os banhos habituais tendo todo o cuidado com a temperatura da água, bem morna sem ser quente, mudava-lhe a roupa e cobria na cama, cabeça de fora, a bela criança pedia ao seu Anjo Negro para contar histórias e outras coisas em que era fértil seu leal servidor.

Certo dia Dona Leopoldina, ficou enternecida ao contemplar Rafael aquecendo a mamadeira do Menino-Imperador. Quando Dom Pedro II não sabia a lição, corria para Rafael pedindo-lhe para o esconder, embora fosse condicionado sempre, que seria a “última vez”….Mais tarde Dom Pedro II ensinou Rafael a ler. Por muito tempo Rafael foi 1º Criado Particular do Imperador e em todas as viagens, mesmo ao estrangeiro, o acompanhou de perto.

A figura quase lendária de Rafael é amplamente descrita no belo livro de Múcio Teixeira, que foi comensal do Imperador por mais de trinta anos, “O Negro da Quinta Imperial”. Rafael contava com 98 anos quando Dom Pedro II foi deposto.

O “Anjo Negro” do Imperador ignorava o doloroso episódio da prisão do seu amo. Múcio conta a cena da comunicação ao leal macróbio, nas seguintes linhas: “Manhã sombria. Uma chuva miúda caíra pela madrugada do dia 16 de novembro de 1889. As vastas alamedas da Quinta Imperial estavam desertas… Rafael, mal raiara a aurora, abandonou seus aposentos, nos baixos do torreão sul, e, muito tremulo, amparado por um rijo bastão, deu início ao seu passeio habitual. Velho e cansado, passara o dia anterior preso ao leito, ignorando que a República havia sido “proclamada” no Brasil.

Vagarosamente caminhava, ouvindo o gorjeio dos pássaros e contemplando, com olhar nostálgico, os lagos sonolentos. Fitava também os bosques sombrios e admirava a Natureza exuberante. Quantas daquelas árvores gigantescas ele vira nascer, florir e envelhecer!

Caminhava e meditava, olhando também para o passado, para a sua longínqua mocidade! Quantos sonhos desfeitos! “Como é triste envelhecer!” – murmurava o velho pajem imperial. Ao chegar ao portão da Coroa, já ofegante, observou com espanto dois soldados que davam “vivas a república”!

Sempre meditando, lentamente regressou ao Paço. Ao aproximar-se do solitário Palácio Imperial, viu o bibliotecário Raposo muito agitado, com cabelos revoltos, andando de um lado para outro lado…

Rafael, muito cansado, curvado e tremulo, sempre amparado pelo seu bastão, dirigiu-se ao bibliotecário do Paço e interrogou-lhe: “Seu Raposo, você enlouqueceu?”  Parando diante do Rafael, o Raposo, como louco, bradou: “Rafael, tu não sabes que ontem foi proclamada a República e que teu Senhor está preso no Paço da Cidade??”.

Rafael, atordoado, deixou cair o forte bastão, no qual a vinte anos se apoiava seu débil corpo; curvado, ergueu-se, cresceu…O seu olhar morto e nostálgico, transfigurou-se, como que iluminado por clarões estranhos. Levantou o braço direito para o céu e exclamou com voz comovente e sonora: “Que a Maldição de Deus caia sobre a cabeça dos algozes do meu Senhor!”

E em seguida rolou por terra: estava morto.”

São as “pequenas” grandes Histórias do Brasil Império, que não são contadas nas Escolas e não fazem parte do currículo, que lamentavelmente fazem-se esquecer nas prateleiras do esquecimento, legando ao Brasil uma cultura de botequim, moldada e forjada pelos sensos comuns grotescos que vemos nas novelas.

Infelizmente isso é verdade. Hoje com 67 anos, sinto-me ludibriado por toda minha vida. Sempre acreditei no avanço histórico que a República trouxera ao Brasil, sem ser informado que isso foi devido a um golpe de estado, sem a participação do povo, e para atender a interesses menores, medíocres e prejudiciais a nação. Hoje começo a ver, por força das novas formas midiáticas de informação, a verdade que a tanto tempo esteve escondida para mim e continua escondida para muitos, a maioria dos meus patrícios.

Mas, o que me conforta é que a verdade mesmo soterrada por toneladas de ignorância e malvadez, sempre vem a tona, e faz a sociedade retomar o rumo positivo da evolução, como todos nós estamos destinados. Esses que, com seus comportamentos trevosos traz tanta dor e atraso à sociedade, certamente terão que pagar suas dívidas. Talvez por isso o nosso planeta ainda seja de provas e expiações, pois têm muitos espíritos voltando para pagar por seus pecados. Por isso, as vezes é contraproducente gerar uma revolução violenta para aliviar o sofrimento de muitos espíritos que estão pagando dessa forma, as dívidas que contraíram, da mesma natureza. Afinal, da lei de Deus ninguém escapa.


Publicado por Sióstio de Lapa em 10/03/2020 às 22h09



Página 6 de 604 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 » [«anterior] [próxima»]


Imagem de cabeçalho: Sergiu Bacioiu/flickr