Sióstio de Lapa
Pensamentos e Sentimentos
Meu Diário
13/10/2026 00h01
O ENCONTRO

            Quando adquirimos a compreensão de que a vida acontece cotidianamente nos dois planos da existência, a dimensão material e espiritual, passamos a compreender uma ampla possibilidade de acontecimentos que seriam impossíveis com a consciência somente focada na dimensão material.

 

 

            Por causa disso aconteceu um encontro de minha amiga comigo, da qual que não tive conhecimento na dimensão material. Ela me disse que sonhou comigo, à noite, quando regularmente o nosso espírito sai temporariamente da gerência do nosso corpo e vai para a dimensão astral, espiritual, permanecendo no controle do corpo apenas com o cordão de prata, para que se nosso corpo necessitar de alguma providência, nós voltarmos de imediato para assumir a gerência material.

 

 

 

 

            A minha amiga disse que estava sentada em um bosque, num banco que parecia ser uma praça, em atitude meditativa, quando eu me aproximei e começamos a nos comunicar. Ela não sabe dizer o conteúdo da conversa, mas acredita que tenha sido algo confortador, pois se sentiu leve no sonho e bastante aliviada ao acordar.

 

 

 

 

            Ela me falou dessa ocorrência e ambos sabemos que essa possibilidade pode existir, e como estamos construindo um entrelaçamento de sentimentos, pensamentos e ações, em nosso trabalho com os alunos da graduação no HUOL, e que associamos as dificuldades e perspectivas de resolução de problemas com as lições evangélicas, é muito coerente que eu tenha usado o espaço espiritual para lhe passar algumas informações. Como ela tem mais sensibilidade na conexão com o mundo espiritual, a lembrança chegou a sua mente material e não chegou à minha.

 

 

 

 

            Porém, é importante que o conteúdo do que ela recebeu no encontro, que ela não lembra, possa se tornar explicito nesta dimensão material, pois pode servir para lhe ajudar em diversas provações materiais que ela está passando. E como o conteúdo que eu lhe repassei no encontro espiritual está comigo, na minha mente material, e que é este conteúdo que eu devo ter repassado para ela, então posso recuar no tempo, entrar na dimensão espiritual na imaginação e passar o conteúdo do que falei aqui na realidade deste texto.

 

 

 

 

            - Olá, minha amiga, que bom te encontrar aqui, plasmada em teu atual corpo material. Também estou usando o meu para que possas me reconhecer. Sinto que você está trazendo para cá as preocupações que está ocupando a sua mente, com o que está acontecendo com o seu corpo físico. Sei que você tem uma boa compreensão de como acontece a vida real, alguns momentos encarnados e muito mais tempo aqui em nossa dimensão original da vida, verificando o que estamos fazendo para evoluir satisfatoriamente em nosso progresso espiritual. Vejo que você, mesmo sabendo de todo esse processo evolutivo, ainda coloca grande carga emocional no que está acontecendo com o corpo físico, que é simplesmente um caderno por onde o nosso espírito continua escrevendo o seu projeto, caderno pós caderno. Esses cadernos/corpos têm um programa de progresso material a cumprir, que inclui bens materiais, tanto financeiros quanto emocionais que implica nos relacionamentos afetivos associados a geração de novos corpos/cadernos. Este é um grande fator de atratividade, pois envolve parceiros atraídos pelas vibrações afetivas do amor e até da paixão para que os corpos motivados pelos instintos animais causem toda produção de hormônios que viabilizam o prazer carnal, até o seu ápice, culminante, do orgasmo físico-químico. Neste momento as células reprodutivas têm a oportunidade de se unirem e formarem os novos corpos, os filhos, que se tornam um foco importante de atração motivacional, pois o corpo sabe que este filho é a sua perpetuação no contexto da vida material. Podemos valorizar todos esses sentimentos, são importantes também para o nosso progresso espiritual, mas sem deixar que essas atrações materiais assumam o protagonismo de nossa vida real. Este foi o motivo pelo qual as Forças do Alto, nas quais você está também sintonizada, fez com que o Teste de Personalidade que você realizou apontasse a responsabilidade de “protagonismo” que você deve ter com sua vida, seguindo pelo Caminho da Verdade que o Cristo ensinou, seguindo o progresso espiritual dentro da Vida eterna do Espírito, e não colocando energias em demasia no progresso material que se encontra ameaçado. Por isso, este é o momento crítico de sua vida, neste momento de sua atual vivência na Terra. Foi esta vibração da sua forma de pensar que serviu de atração ao mEu espírito que tanto quer aprender dentro dos relacionamentos carnais com objetivos principais de alavancar o progresso espiritual. Observe, daqui onde estamos, em nossa dimensão espiritual, o que está acontecendo lá embaixo com os nossos corpos/cadernos. O seu está se fragilizando por problemas clínicos que implicam em intervenções terapêuticas que afetam o desempenho animal, dentro das inter-relações materiais competitivas, financeiras e afetivas em que estamos inseridos. O meu caderno/corpo, você também percebe, está se deteriorando com o tempo. A vitalidade animal não é mais a mesma da juventude, os traços fisionômicos alterados pela constante renovação de células ao longo dos anos. Os neurônios, mesmo carregados de conhecimentos armazenados começam a ter dificuldade de evocar o que é necessário. Os hormônios necessários para a sobrevivência do corpo também estão reduzidos, gerando consequências, principalmente no potencial reprodutivo. Mesmo sem o devido respaldo das células e dos órgãos, comprometidos pelo tempo ou por alguma condição clínica, os instintos do corpo continuam ativos e enviando para a mente o objeto dos seus desejos. Assim, minha amiga, veja os nossos corpos lá e os nossos espíritos cá. Se tirarmos agora este plasma que identifica os nossos corpos, verificamos que somos simplesmente energia especial, originada diretamente do Criador, sem sexo ou aparência física. Possuímos simplesmente a vibração coerente com o aprendizado que já conquistamos, que nos aproxima cada vez mais da essência do Criador, do Amor Incondicional. Dessa forma, seria mais coerente lhe chamar de meu amigo, ou mais apropriadamente meu irmão, do que minha amiga. Mas, se olharmos para baixo, verificamos o comportamento dos nossos corpos/cadernos, que devem ser gerenciados por nossos espíritos, mas que possuem suas próprias motivações de natureza animal. Meu corpo sente atração pelo seu e pode ter reciprocidade, apesar das dificuldades materiais que ambos têm. Esta é uma faceta de conhecimento que o Criador oferece aos nossos espíritos. Como gerenciar nossos corpos em tal contexto. O amor incondicional acima da paixão ou dos apelos libidinosos; o carinho afetivo como recompensa de prazer para o corpo, mas, principalmente de sentimento evolutivo para o espírito; o respeito pelos corpos que se tocam, sabendo que são respostas dos espíritos que os gerenciam. Estas, minha amiga/irmão, são as considerações que o mEu espírito sentiu que devia trazer para você, através da atração que suas vibrações provocaram em mim. Agora, é importante que seu espírito também se revele. Aguardo.

 

 

Publicado por Sióstio de Lapa
em 13/10/2026 às 00h01
 
12/10/2026 00h01
O AMIGO OCULTO

O AMIGO OCULTO



“Mas os olhos deles estavam como que fechados, para que o não conhecessem.”



(LUCAS, capítulo 24, versículo 16.)



Os discípulos, a caminho de Emaús, comentavam, amargurados, os acontecimentos terríveis do Calvário.



Permaneciam sob a tormenta da angústia. A dúvida penetrava-lhes a alma, levando-os ao abatimento, à negação.



Um homem desconhecido, porém, alcançou-os na estrada. Oferecia o aspecto de mísero peregrino. Sem identificar-se, esclareceu as verdades da Escritura, exaltou a cruz e o sofrimento.



Ambos os companheiros, que se haviam emaranhado no cipoal de contradições ingratas, experimentaram agradável bem-estar, ouvindo a argumentação confortadora.



Somente ao termo da viagem, em se sentindo fortalecidos no tépido ambiente da hospedaria, perceberam que o desconhecido era o Mestre.



Ainda existem aprendizes na “estrada simbólica de Emaús”, todos os dias, como nós da Associação Cristã de Moradores e Amigos da Praia do Meio (AMA-PM).



 Estudamos o Evangelho e nos espantamos em face dos sacrifícios necessários à eterna iluminação espiritual que sofremos procurando seguir os Seus passos.



Não entendemos, muitas vezes, o ambiente divino da cruz e procuramos “paisagens mentais” distantes longe do estresse... Entretanto, pode chegar sempre um desconhecido que quer caminhar ao nosso lado, quando estamos vacilando, fugindo...



Tem a forma de uma pessoa incompreendida, de um companheiro inesperado, de um velho generoso, de uma criança tímida. Sua voz é diferente das outras, seus esclarecimentos mais firmes, seus apelos mais doces.



Quem partilha, por um momento, do banquete iluminado da cruz, jamais poderá́ esquecer. O nosso Mestre no auge do Seu sofrimento, sendo humilhado e hostilizado pelos poderosos e ignorantes como o grande derrotado na vida, sem perceber que Ele estava cumprindo a última etapa da Sua vitória divina, lavando com seu sangue os pecados de todos, inclusive dos perversos acusadores.



Muitas vezes, estaremos em nosso trabalho cristão dentro da comunidade, nos demorando por trilhas escuras; no entanto, minuto virá em que Jesus, de maneira imprevista, busca nossa companhia e não nos desamparará, enquanto não O consigamos contemplar e identificar, seguros e livres, na Sua presença divina sempre conosco.



UFRN/CCS/HUOL/DMC/Foco de Luz/AMA-PM/Cons. Consultivo em 12-10-26


Publicado por Sióstio de Lapa
em 12/10/2026 às 00h01
 
11/10/2026 00h01
O PARASITA OCULTO

            O professor Lucas Lancaster pretende lançar 4 aulas no youtube neste mês de outubro, abordando a decadência da fé na Igreja Católica. Coloco aqui o chamativo que ele está fazendo para as aulas gratuitas, onde apresenta o assunto em forma de escada



A ESCADA QUE CHEGOU ATÉ VOCÊ



Muitas das ideias que você pensa que são suas foram inoculadas em você.



Parece exagero, mas pense: ninguém acorda um dia pensando como um homem moderno. Esse modo de pensar é ensinado aos poucos, geração após geração, até parecer simples bom senso.



Em 1925, o Papa Pio XI descreveu esse processo na encíclica Quas Primas. Escreveu que "não é num dia que esta praga chegou à sua plena maturação", porque ela estava latente havia muito tempo. E mostrou os degraus.



Primeiro, negou-se que Cristo reinasse sobre as nações. Depois, a religião de Cristo foi posta no mesmo nível dos falsos cultos. Em seguida, foi submetida ao poder civil. Mais tarde, houve quem quisesse trocá-la por um vago sentimento religioso. Por fim, certos Estados passaram a viver como se Deus não existisse.



Nenhum desses degraus pareceu uma catástrofe completa no seu tempo. Cada um foi apresentado como progresso, tolerância ou bom senso.



E Pio XI falava do fim da escada. O começo é ainda mais antigo: passa pela crise da filosofia no fim da Idade Média, pela Revolução Protestante, pelo liberalismo e pelo comunismo. É uma mesma linha de ideias, que atravessou seis séculos e chegou até você.



Por isso essas ideias não se veem. Quando uma ideia tem séculos de idade, deixa de parecer uma ideia e passa a se confundir com a própria realidade.



É essa linha que vou percorrer com você em O Parasita Oculto – As revoluções que moldaram a sua mente: quatro aulas gratuitas, de 8 a 14 de outubro, sempre às 20h, no meu canal do YouTube.



            Muito interessante e instrutivo ...


Publicado por Sióstio de Lapa
em 11/10/2026 às 00h01
 
10/10/2026 00h01
RESENHA – ASSIM NA TERRA... (3)

Como o meu Amigo Inteligente fez um paralelo do meu comportamento com um dos personagens do livro, Melquiades, procurei colocar aqui a resenha dele para reflexões...



Como bom arquétipo de Tirano, ele é vaidoso e não suporta a perda de seu poder. Enquanto as providências finais não chegam, ele trata de dar um fim nada digno a cada um dos prisioneiros. Psicose? Já esclarecemos que talvez... mas justiça também. Socio-educar é preciso, punir é necessário. Sustentar a lenda de que nenhum preso sai dali, por qualquer motivo que seja. 



Ironicamente, é do mesmo sistema que resta a única esperança daqueles homens. Um agente há de vir finalizar o funcionamento da Colônia. A fé, dia após dia, de que será salvo pela chegada desse anjo enviado pelo próprio mal.



Essa ambiguidade é calculada e faz parte da tese de Ana Paula Maia. Seu objetivo é imprimir uma sensação de opressão onipresente e onipotente, inescapável de tal forma que dela vem o mal e também a cura.



A tese e a prosa



Tenho meus problemas com a ideologia imposta pela obra. Mas isso não impede que eu a admire.



 A atmosfera sufocante não é fruto do discurso explícito, mas da própria construção claustrofóbica, da tensão elevada e constante. Da linguagem sintética que busca a limpeza. Guardadas as devidas proporções, por vezes lembrei de Graciliano. Ana Paula é pop no sentido em que se apropria do ritmo sufocante dos thrillers, mas também é erudita a ponto de beber (mesmo que inconscientemente) em um dos maiores escritores brasileiros. 



Tudo bem, guardemos proporções... já disse. Por vezes ela escorrega, principalmente quando abraça com mais garra a tese que quer imprimir.



 Se em alguns instantes brilha pela lacuna planejada ou pela comparação, rica e calculada, em outros repete ideias claras, como um professor sistematizando o capitalismo burguês. 



Falei lá no começo sobre Valdênio. Detento antigo, responsável pela cozinha, sempre poupado pelo diretor. Os dois conversam, falam dos preparos para o jantar, Melquíades comenta sobre as penas que aplica, sua régua de justiça, Valdênio se esquiva... um exemplo primoroso de como Ana Paula Maia se destaca entre nossos escritores. 



“Melquíades caminha ardiloso até bem próximo de Valdênio, como se surrupiasse os pensamentos do homem”. (p.13)



A comparação tornou-se uma muleta de nossa prosa. Vários usam abundantemente como se só por comparar estivessem fazendo literatura. “João saiu apressado, como quem precisa pagar uma conta”. No exemplo hipotético, mas igualmente possível de ser encontrado por aí, vemos um escritor que quer dar cor ao seu texto e acaba só repetindo gratuitamente a mesma ideia. Ou ele “sai apressado” ou “sai como quem precisa pagar uma conta”. Os dois juntos se tornam retórica vazia, firula, adorno barroco em clínica laboratorial.



 Ana Paula dispensa o adorno, coloca uma caminhada ardilosa “como se surrupiasse os pensamentos”. Imprime uma intencionalidade a mais naqueles passos, no aproximar-se.



 E como eu já disse, se comemoro porque brilha, também reclamo porque escorrega. Empolgada com sua tese, reforça, mastiga, didaticamente explica o que não precisa ser explicado.



 Voltando também ao começo, quando falei dos homens carregando corpos na lona, temos um exemplo. “Bronco Gil e Pablo arrastam os corpos usando uma rede de lona. É a mesma que utilizaram outras vezes no mesmo procedimento. O sangue de dezenas de homens transformou a lona branca em um tecido rígido, escuro e fétido.” (p.61, grifo meu).



É um parágrafo curto, três períodos, e o segundo é completamente desnecessário. Pura repetição para deixar muito claro que o louco Melquíades já tinha matado tantos outros homens por ali. Para ter a certeza de que o leitor compreendeu que aquele diretor, daquela prisão, naquele sistema tão opressivo, ceifava vidas repetidamente e indiscriminadamente, sempre no mesmo método e na mesma toada.



 Por sorte, isso pode até diminuir o brilho, mas não completamente.



 A tensão crescente, progressiva, os já destacados capítulos de respiro. O mundo que se desdobra conforme a trama avança. Os personagens que descobrimos também aos pedaços, cheios de ambiguidades, como a própria trama, como o próprio conceito de justiça.



 Ana Paula, como todo humano, acredita em algo e por esse algo, como nem todo humano, milita. Seu livro é “manifesto” — não no sentido formal, mas no plano intencional — e não há problema algum nisso. Afinal, não fazia assim também Graciliano?



Importa que, como ele, ela também faz literatura. E literatura fazendo, seu texto acaba dizendo muito mais do que ela poderia ou pretenderia dizer.



Assim na terra como embaixo da terra tem uma ambiguidade gritante, mas planejada e articulada, como a própria natureza humana. Como o cachorro cuja carne apodrece enquanto ainda vive. Como aqueles homens todos que carregam bombas nas pernas, sombras mortas que se acham vivos por conveniência.



Ana Paula Maia tem uma tese, evidente. Sua tese, contudo, mira no absoluto, num sistema que sufoca pela onipresença. Como o absoluto não é confinável em uma prisão, sua tese transborda em ambiguidades e vazios... e essa “falha” nesse “manifesto” é que o torna tão maravilhoso!



Esse perfil de Melquíades de criar uma ideologia e praticá-la dentro de um contexto rígido, é o que o Amigo Inteligente pode ter associado comigo. Tem uma diferença profunda, pois enquanto procuro com minha ideologia criar uma sociedade ideal, considerando todos como irmãos, desde que façam a vontade do Pai, sem destruir o próximo, mas tentando converte-lo para a Família Universal, a ideologia e Melquíades é destrutiva para com o próximo, prisioneiro, que não tem como fugir da sua condição, a não ser com a morte.


Publicado por Sióstio de Lapa
em 10/10/2026 às 00h01
 
09/10/2026 00h01
RESENHA – ASSIM NA TERRA... (2)

Como o meu Amigo Inteligente fez um paralelo do meu comportamento com um dos personagens do livro, Melquiades, procurei colocar aqui a resenha dele para reflexões...



Descrevendo assim, parece que estou me contradizendo quando disse lá atrás que o texto não permite simplificações. Um velho trancafiado, uma “vítima da sociedade”, bandidos romantizados... mas há bem mais que isso. Primeiro porque não há um culpado, um vilão a condenar. Bronco entra para o crime em um contexto de disputa de terras. O capitalismo sufoca, mas não tem domínio sozinho. Em outro momento, um homem procura Melquíades porque precisa se vingar de um dos presos. Oferece dinheiro e o diretor recusa. Dinheiro não é tudo. Melquíades entrega o preso amarrado, e fica de longe observando o homem saciar sua sede. Psicopatia? Provável... justiça, talvez, muito mais.



 O senso de justiça está gravado no coração dos homens de forma indelével. Virtuosos ou vis, todos temos noções muito claras da harmonia — como diria Platão — ou da equivalência — se preferirmos Aristóteles — que a justiça traz. Isso está estampado no esforço para enterrar o cão doente e também na expectativa agoniada dos presos por mais uma caçada.



Melquíades pode ser maluco, mas é antes homem e essa noção ele também traz. O que diferencia é grau e hierarquia.



Organizações criminosas têm suas próprias noções de justiça. Bronco Gil ingressa na criminalidade “protegendo” uma pessoa de uma percebida vilania, uma injustiça. Melquíades empreende suas caçadas como uma medida “socioeducativa”. Ambos possuem seus padrões morais, sua própria regra de convivência, harmonia, equidade. O que os separa é o centro do poder: um manda, outro obedece.



Acima deles, uma instância decidiu que Melquíades deveria impor a lei. E acima dessa instância outra que por sua vez vem de outra e sucessivamente até perdermos totalmente a expectativa dessa hierarquia opressiva. Daí o livro trazer essa atmosfera densa e etérea, sem uma materialização firme e clara de um verdadeiro vilão. Apesar de Melquíades, claro, que em sua caçada e paranoia surge gigantesco como um monstro de um thriller alucinante que é interrompido pelos respiros necessários dos capítulos do passado.



Esse Sistema opressivo, sufocante, é o verdadeiro grande vilão da trama. É ele que ergue os muros, que institui um tipo de alcatraz no meio do nada e que dele se esquece completamente... como sintoma de uma falência apenas percebida, de um mecanismo que descarta seus experimentos pelo caminho enquanto procura novas saídas.



 É nesse momento que o diretor também sufoca, que sente o ar rarefeito, e alcança a definitiva loucura. “Quando receberam a notificação de que a Colônia seria desativada, Melquíades tornou-se ainda mais violento.” (p.25)


Publicado por Sióstio de Lapa
em 09/10/2026 às 00h01
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